Institutos de pesquisa em crise

É constrangedora a situação nos institutos de pesquisa científica vinculados ao governo do Estado de São Paulo, conforme relatou Herton Escobar em recente reportagem no Estado. Os problemas são múltiplos, mas nada resume melhor a precariedade do que o desabafo da bióloga Roseli Torres, curadora do herbário do Instituto Agronômico de Campinas: ela disse que se sente "humilhada" por causa das condições de trabalho. Dada a falta de funcionários, Roseli e outros pesquisadores são obrigados a fazer a faxina do local. "Hoje em dia nem limpeza decente dentro do instituto a gente tem. Quem varre o chão e tira o lixo do banheiro somos nós", diz a cientista.

O Estado de S.Paulo

28 Janeiro 2014 | 02h07

O Instituto Agronômico de Campinas não é uma entidade qualquer. Com 126 anos de existência, é uma referência em sua área de atuação, sendo responsável por pesquisas agrícolas com impacto importante no setor - basta saber que 90% dos cafeeiros arábica cultivados se originam de cultivares desenvolvidos pelo instituto. Tal perfil não combina com a imagem de cientistas com vassoura na mão.

O problema, contudo, não se limita ao Instituto Agronômico de Campinas, tampouco à falta de funcionários. Há escassez generalizada de cientistas e pesquisadores em diversos outros institutos.

Há casos críticos, como o de Yara Aiko Tabata, de 61 anos, que não pode se aposentar por ser a única pesquisadora da Estação Experimental de Salmonicultura do Estado de São Paulo. Yara não quer deixar o trabalho porque sabe que, se o fizer, não terá substituto, e toda a pesquisa será engavetada. "Não me aposento porque gosto muito do meu trabalho; fazemos das tripas coração aqui para que tudo funcione."

O problema é de falta de recursos e, principalmente, de pessoal. O caso de Yara é exemplar. Sua equipe já chegou a ter 15 funcionários; hoje, resume-se a 4 - além dela, há 2 auxiliares de campo e 1 servidor administrativo - e todos estão acima dos 50 anos de idade. Graças à escassez de funcionários, Yara, a exemplo de outros cientistas, é obrigada a dedicar-se a problemas burocráticos.

Para funcionarem adequadamente, os institutos de pesquisa deveriam ter cerca de 2,2 mil pesquisadores, mas há apenas 1,5 mil em atividade. Somando-se os cargos necessários em todas as carreiras, somente metade está preenchida. O déficit se explica pela falta de reposição de funcionários que se aposentam, falecem ou se transferem para outras instituições. "Corremos o risco de um apagão científico", diz Laerte Machado, pesquisador do Instituto Biológico.

Considerando que mais da metade dos pesquisadores em atividade nos institutos tem entre 50 e 70 anos, e considerando que o intervalo entre um concurso e outro tem sido de dez anos, a perda de cientistas por aposentadoria, sem que eles sejam substituídos, tende a se agravar no futuro próximo. "É um cenário que preocupa", admite o diretor da Agência Paulista de Tecnologia de Agronegócios, entidade sob a qual estão os seis institutos de pesquisa da Secretaria de Agricultura e Abastecimento. Para ele, seria necessário fazer um concurso imediato para a contratação de 100 pesquisadores e 200 funcionários de apoio, para "dar uma ajeitada na casa".

Além disso, os institutos estaduais têm perdido pesquisadores para a iniciativa privada, para universidades e para entidades federais, como Embrapa e Fiocruz, que pagam melhores salários. "O governo investe na formação do cientista, depois o pune com um salário ruim", afirma Orlando Garcia Ribeiro Filho, presidente da Comissão Permanente do Regime de Tempo Integral e pesquisador do Instituto Butantan.

O cenário é agravado pelo fato de que os novos pesquisadores, quando enfim forem contratados, não terão a oportunidade de trabalhar com os cientistas que iniciaram a pesquisa, pois estes já terão se aposentado ou então terão trocado o instituto por alguma entidade com melhores condições de trabalho. Assim, graças à lentidão do Estado, corre-se o risco de que pesquisas importantes sofram atrasos ou simplesmente se percam pelo caminho.

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