Intercâmbio ou desperdício?

A queda significativa do número de bolsistas brasileiros no exterior acompanha o esforço do governo para minimizar o desperdício bilionário de recursos escassos

O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2017 | 03h03

Levantamento feito pelo Estado revela que o intercâmbio de alunos de graduação das universidades públicas brasileiras com centros de pesquisa e instituições educacionais estrangeiras caiu 99%, desde o encerramento do programa Ciência sem Fronteiras, no ano passado. Entre as universidades brasileiras analisadas estão as três estaduais paulistas – USP, Unicamp e Unesp – e duas federais, a Unifesp e a UFABC. Entre 2016 e 2017, esta última só recebeu três bolsas de intercâmbio, ante 51 em 2014.

Com base nesses números, entidades estudantis e científicas alegam que o fim do Ciência sem Fronteiras empobrecerá a formação das novas gerações de estudantes universitários, negando-lhes uma formação cosmopolita. Também afirmam que o fechamento desse programa agravará as desigualdades sociais, uma vez que, sem recurso público, a possibilidade de estudar no exterior ficará restrita a quem pode pagar. E disseram, ainda, que a queda do número de bolsistas comprometerá o acesso às principais fontes mundiais de conhecimento científico, prejudicando com isso o desenvolvimento tecnológico do Brasil. “A ciência perdeu a circulação de cérebros, o compartilhamento de conhecimentos e descobertas que havia com os intercâmbios. Como muitos dos atuais alunos de graduação se tornarão futuros pesquisadores, o prejuízo na formação deles tem impacto na ciência”, diz Carlos Roberto Cury, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

Em resposta a essas críticas, o Ministério da Educação (MEC) distribuiu nota afirmando que a queda do número de intercâmbios ocorreu por causa da crise econômica. Também afirmou que as agências de fomento à pesquisa e aperfeiçoamento do pessoal de ensino superior foram orientadas a concentrar os recursos disponíveis em projetos de internacionalização no âmbito da pós-graduação. E anunciou, ainda, que começou a estudar a possibilidade de enviar alunos de ensino médio para estudar no exterior.

Esse debate deixa uma questão importante de lado. Trata-se do enorme estelionato educacional que foi o Ciência sem Fronteiras. Lançado em 2011 pela presidente Dilma Rousseff e usado como bandeira eleitoral na campanha pela reeleição, ele tinha por objetivo reduzir a distância entre as universidades brasileiras e as universidades estrangeiras mais bem classificadas nos rankings internacionais. Mas, em vez de definir critérios precisos, estabelecer metas e priorizar as áreas técnicas nas quais o Brasil é carente de especialistas e que são estratégicas para o desenvolvimento econômico, o governo Dilma financiou indiscriminadamente cursos em quase todas as áreas do conhecimento, inclusive aquelas em que o mercado de trabalho estava saturado.

Como o governo também não exigiu dos bolsistas proficiência no idioma em que as atividades didáticas seriam realizadas, muitos não conseguiram acompanhar os cursos em que se matricularam e voltaram ao País sem aperfeiçoar sua formação intelectual. Também foram detectados vários casos de bolsistas reprovados nos exames de seleção das universidades que escolheram. Por falta de cobrança de resultados, um contingente expressivo abandonou os estudos, usando o valor das bolsas para fazer turismo.

Segundo dados do MEC, em 2015 o Ciência sem Fronteiras custou R$ 3,7 bilhões apenas para atender 35 mil dos 101 mil bolsistas previstos. Em outras palavras, por causa da sucessão de erros administrativos do governo anterior, parte desse investimento jamais retornou ao Brasil em forma de capacitação profissional e qualificação acadêmica com padrão de excelência. Por isso, os gastos com o programa tiveram de ser contabilizados como prejuízo para os cofres públicos. A queda significativa do número de bolsistas brasileiros no exterior acompanha, assim, o esforço do governo para minimizar o desperdício bilionário de recursos escassos.

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