Inversão de prioridades

Levantamento realizado pela entidade não governamental (ONG) Contas Abertas indica que a Presidência da República foi o órgão do governo federal que mais gastou com publicidade em 2014. Os seus gastos em propaganda conseguiram a proeza de superar pastas importantes, como o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação. O estudo não deixa de ser mais uma prova de que a prioridade dada pela presidente Dilma Rousseff às tarefas do último ano do seu primeiro mandato foi a sua reeleição. Onde se põe o dinheiro aí está a prioridade de um governante. Onde se põe o dinheiro aí estão as reais escolhas políticas de um governante. E o governo Dilma Rousseff priorizou a promoção institucional da Presidência da República, pondo em plano inferior áreas cruciais para o bem do País.

O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2015 | 02h03

E Dilma Rousseff conseguiu o que quis. Reelegeu-se. E quem pagou essa conta foi o País, ao ter um governo que, em vez de cuidar das reais prioridades da Nação, se dedicou a cuidar muito bem da própria imagem.

Os gastos em campanhas publicitárias da Presidência da República alcançaram em 2014, segundo a ONG Contas Abertas, R$ 210,9 milhões. Desse montante, a maior parte (R$ 161,7 milhões) foi destinada à publicidade institucional. Foram campanhas para divulgar os atos, as obras e os programas governamentais. Ou seja, é um tipo de gasto eleitoralmente relevante, para o qual - como se vê - a Presidência da República não regateou esforços.

No ano passado, as campanhas institucionais da Presidência da República tiveram como finalidade dar visibilidade à atuação do governo federal na realização da Copa do Mundo. Ali estava a sua vitrine. Segundo o governo, o objetivo era fortalecer os atributos positivos da imagem do Brasil, para o qual se utilizou o conceito "A Pátria de Chuteiras vai entrar em campo. Vibra Brasil!!!". Interessante a visão que o governo tem dos atributos positivos do País.

Por outro lado, a publicidade de utilidade pública, cujo objetivo é informar e orientar a população a respeito de comportamentos que trazem benefícios reais para a melhoria da qualidade de vida, não teve o mesmo orçamento que o da publicidade institucional. À propaganda de utilidade pública promovida pela Presidência restaram R$ 48,3 milhões.

Os gastos da Presidência da República com publicidade ficam ainda mais chamativos quando se comparam com os do Ministério da Saúde, habitualmente a pasta que mais investe em publicidade, tendo em vista as suas campanhas de informação sobre saúde pública. Em 2014, o Ministério da Saúde gastou R$ 209,9 milhões. A publicidade de utilidade pública do Ministério foi responsável por 90% da verba investida (R$ 188 milhões). Nesse item estavam incluídas, por exemplo, as campanhas de combate à dengue e de prevenção da aids, tuberculose e hanseníase, entre outras doenças. Com a publicidade institucional, o Ministério da Saúde gastou R$ 3,7 milhões e com a publicidade legal, R$ 18,3 milhões.

Em terceiro lugar no ranking de publicidade do governo federal em 2014 ficou o Ministério das Cidades (R$ 179,9 milhões), responsável pelas campanhas de redução de acidentes de trânsito. O Ministério do Turismo - que tem a tarefa de promover o turismo tanto de brasileiros quanto de estrangeiros no Brasil, além de realizar campanhas contra a exploração sexual de crianças - gastou R$ 102,8 milhões com publicidade no ano passado.

Em 2014, os gastos totais do governo federal com publicidade foram da ordem de R$ 1,1 bilhão, representando um aumento de 10% em relação ao ano anterior. Infelizmente, esse aumento em ano eleitoral tem sido corriqueiro no Brasil. De toda forma, ter sido a Presidência da República o órgão que mais gastou com publicidade no governo federal significa um agravamento dessa inversão de prioridades. Já não se tem qualquer pudor em deixar explícito - pelo montante e pela qualidade dos gastos - que o interesse eleitoreiro importa mais que os interesses do País.

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