Investimentos em etanol

Trinta e seis anos depois do lançamento do Proálcool, que previa substituir a gasolina cara e importada pelo álcool brasileiro, investimentos insuficientes, tanto na produção de cana-de-açúcar como em novas usinas, ameaçam o equilíbrio entre a oferta e a demanda de etanol, como se verificou neste ano, segundo reportagem de Renée Pereira, no Estado (23/5, B1). E a escassez de álcool tenderá a persistir até, na melhor das hipóteses, 2013, avaliam usineiros e especialistas do setor sucroalcooleiro. "Não há mais tempo para mudar esse cenário", assinalou José Olivério, vice-presidente da fabricante de equipamentos Dedini.

, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2011 | 00h00

Não é esta a primeira vez que o Proálcool enfrenta dificuldades. O consumidor só opta pelo álcool quando ele custa 70% do preço da gasolina, que é quando a relação custo-benefício favorece o consumidor.

Até a primeira quinzena de maio, era mais econômico abastecer com gasolina; na última semana, o preço do litro do álcool voltou a atrair o consumidor. Esse vaivém de preços que afeta produtores e distribuidoras tende a persistir, devido à falta de investimentos, mas também de políticas eficientes para o setor.

Os investimentos sucroalcooleiros oferecem vantagens como a de permitir, em muitas usinas, optar pela produção de açúcar ou pela produção de álcool - com a escolha do produto que for mais rentável. Além disso, propicia o uso do bagaço de cana, um resíduo do processo produtivo, para alimentar usinas próprias de geração de eletricidade.

Há, no País, 329 usinas que investiram na biomassa, com capacidade de geração de 6,3 mil MW, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Em 2010, segundo técnicos da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), a produção efetiva foi de 2,1 mil MW médios, dos quais a metade atende ao consumo das usinas e a outra metade foi comercializada.

O descompasso entre a oferta e a demanda de álcool, neste ano, não teve característica circunstancial, mas estrutural, segundo os técnicos. Entre 2000 e 2010, enquanto a produção de veículos a gasolina caiu de 1,31 milhão de unidades para 280 mil, a de veículos movidos a álcool ou flex-fuel avançou de 9,4 mil para 2,87 milhões.

Entre 2010 e os primeiros meses de 2011, houve uma queda na participação dos veículos flex-fuel, de 86,4% para 84,4% - o que corresponde a uma diminuição de 60 mil veículos por ano.

Em vista da tendência da perda de competitividade do álcool, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar estima que o porcentual de autos abastecidos com etanol tenha caído de 60%, na safra 2008/2009, para 45%, neste ano, projetando 37%, para a safra 2020/2021.

A demanda de matéria-prima deste ano será superior à oferta em 143 milhões de toneladas. Nos próximos 10 anos, essa diferença entre oferta e demanda deverá atingir 400 milhões de toneladas de cana-de-açúcar.

Para atender totalmente à demanda, os produtores terão de investir R$ 80 bilhões, nos próximos 10 anos, dobrando a área plantada e construindo 15 usinas por ano, em média. Entre 2005 e 2010, foram construídas 112 usinas, mas, neste ano, haverá apenas 5 usinas novas. "A crise enxugou o excesso de liquidez e provocou uma chuva de falências no setor", disse o presidente da Companhia Brasileira de Açúcar e Álcool, José Pessoa de Queiroz Bisneto.

O secretário de Produção e Agroenergia do Ministério da Agricultura, Manoel Bertone, argumentou que o governo estuda, desde o ano passado, como tratar o mercado de biocombustíveis. O problema não seria falta de recursos. "Dinheiro, a Petrobrás, o BNDES e fundos privados têm", declarou.

Mas, para equilibrar o mercado de álcool, a primeira providência é criar estoques reguladores para os períodos de entressafra, o que permitiria reduzir as oscilações de preço do etanol - e isso exige dinheiro.

Mantida a política de preços para a gasolina, os preços do álcool ficam limitados, impedindo os produtores de compensar os preços baixos das fases de superoferta. Estimulá-los a investir, portanto, não será fácil.

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