Juros, crescimento e riscos

Mais uma ajuda à reativação da economia foi dada pelo BC com o novo corte dos juros básicos, desta vez de 8,25% ao ano para 7,5% ao ano

O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2017 | 03h14

Mais uma ajuda à reativação da economia foi dada pelo Banco Central (BC) com o novo corte dos juros básicos, desta vez de 8,25% ao ano para 7,5% ao ano. A taxa provavelmente estará em 7% quando chegar o Natal, confirmando a projeção do mercado financeiro. Para o consumidor o crédito ainda será muito caro, pelos padrões internacionais, mas as condições de financiamento têm melhorado e já contribuem para animar os negócios. A próxima redução da taxa deverá ocorrer na última reunião de 2017 do Comitê de Política Monetária (Copom). O Comitê, formado por diretores do Banco Central, é o responsável pela definição das condições de crédito. A expectativa de um corte menor que o anterior foi reforçada em nota emitida no começo da noite de quarta-feira, depois da deliberação sobre a taxa básica. Para a reunião dos dias 5 e 6 de dezembro, programada como a última do ano, considera-se “adequada uma redução moderada na magnitude de flexibilização monetária”. Em linguagem corrente, uma redução menor que 0,75 ponto. Mas a ideia ainda é manter uma política “estimulativa”.

Essa política envolve a adoção de juros abaixo da chamada taxa estrutural, aquela necessária para impedir um desarranjo maior no sistema de preços. Envolve, portanto, alguma ousadia, mas o risco assumido pela autoridade monetária tem sido, até agora, limitado. A inflação recuou sensivelmente desde o segundo semestre do ano passado e as projeções apontam números próximos da meta oficial nos próximos dois ou três anos. Mas essas projeções são baseadas em pressupostos talvez um tanto otimistas.

Um deles é a manutenção de condições políticas propícias à continuidade do ajuste das contas públicas e à implementação de reformas. Mas é muito arriscado, neste momento, avaliar como se desenvolverão as campanhas eleitorais no próximo ano e estimar o espaço de ação do governo.

A última flecha disparada pelo ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer foi detida no Congresso Nacional. Apesar dessa vitória, o Executivo terá de superar resistências consideráveis, nos próximos meses, para avançar no programa de reformas até o fim do ano. Para suas decisões, os membros do Copom continuarão olhando a evolução dos preços, o cenário internacional e as condições políticas internas.

Essas condições podem afetar de forma significativa a administração das contas públicas. Uma recuperação mais forte da economia em 2018 poderá gerar mais impostos e facilitar a execução do Orçamento, mas seria otimismo excessivo desprezar os perigos de um período de eleições.

Há razões mais que suficientes para tratar os problemas das contas públicas, incluída a pauta de reformas, como questões emergenciais. Mesmo sem riscos maiores no período eleitoral, ainda seria preciso trabalhar com um sentimento de urgência.

Os juros devem continuar subindo nos Estados Unidos, depois de anos de políticas frouxas, destinadas a estimular a economia. Do outro lado do Atlântico, o Banco Central Europeu começará em janeiro a ajustar sua estratégia, reduzindo as compras de títulos no mercado e, portanto, diminuindo a emissão de euros. Os juros oficiais continuarão baixos, mas o início de mudança na política poderá afetar o mercado financeiro, reforçando o movimento já desencadeado nos Estados Unidos.

As condições internacionais têm sido benignas, com recuperação da atividade e farto financiamento, mas alterações nas políticas monetárias dos Estados Unidos e da Europa afetarão, quase certamente, os fluxos de capitais. Quanto mais avançado no ajuste, mais preparado estará o Brasil para enfrentar essas mudanças. Nesse caso, o Copom poderá mais facilmente, e com menores custos para o País, adaptar-se a essas novas condições.

Muitos políticos de Brasília raramente, ou nunca, levam em conta o conjunto do País. Cuidam de interesses particulares e, no máximo, de suas clientelas. O Brasil estaria mais seguro se olhassem mais para os problemas do País e, de vez em quando, para além das fronteiras nacionais.

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