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Juros externos, um risco a mais

O Estado de S.Paulo

23 Agosto 2014 | 02h 04

A economia americana continua em recuperação, o desemprego tem diminuído, há sinais de inflação mais forte e a discussão sobre a próxima alta de juros tornou-se mais intensa entre os dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Não há motivo para pânico, mas governantes de países mais dependentes de dinheiro externo para fechar suas contas deveriam ficar espertos. O Brasil estará mais seguro se em Brasília se der um pouco mais de atenção ao assunto. O debate sobre os juros é uma das principais informações contidas na ata da última reunião, nos dias 29 e 30 de julho, do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc), responsável pela política monetária nos Estados Unidos. O aumento das taxas deverá começar no próximo verão americano, dentro de um ano, portanto, disse na quinta-feira o presidente do Fed de São Francisco, John Williams, membro do comitê nacional. Mas poderá vir antes, admitiu, se a criação de empregos e a inflação avançarem mais rapidamente do que se espera. Um dos efeitos evidentes será a maior dificuldade para arranjar dinheiro no mercado financeiro internacional.

O comentário de Williams coincidiu, no essencial, com a avaliação feita nos mercados logo depois de conhecida, no dia anterior, a ata da reunião do Fomc. O texto, redigido com a cautela habitual, deixa claro, no entanto, o debate mais intenso a respeito do ritmo de mudança da política do Fed. Por enquanto, os membros do comitê apenas decidiram manter a retirada gradual dos incentivos monetários. Neste mês, o dinheiro emitido e posto no mercado por meio da compra de títulos deverá ficar em US$ 25 bilhões. No mês anterior, a emissão havia sido de US$ 35 bilhões. O programa de redução mensal de US$ 10 bilhões foi implantado no começo deste ano.

Desde o primeiro anúncio da mudança, no segundo trimestre do ano passado, a tendência do dólar no mercado internacional tem sido de valorização. Isso se explica em parte pela redução gradual das emissões e em parte pela expectativa de juros mais altos, mesmo antes de qualquer alteração efetiva nas taxas de referência administradas pelo Fed.

Nos primeiros meses depois desse anúncio o real foi uma das moedas mais afetadas pelas novas condições do mercado. A resposta das autoridades brasileiras foi um programa de intervenção regular do Banco Central (BC) no mercado cambial. Por meio de operações de swap cambial, uma espécie de transação no mercado futuro, a autoridade monetária tem oferecido aos investidores um enorme volume de dólares. Isso tem freado a desvalorização do real e mantido a cotação do dólar abaixo de R$ 2,30.

Essa política pode parecer estranha, quando se consideram as más condições do comércio exterior brasileiro, atribuíveis em parte - mas só em parte - à valorização do real. Por que não aproveitar a oportunidade e aceitar uma depreciação cambial potencialmente benéfica à balança comercial brasileira?

A resposta é simples: porque a desvalorização do real seria mais um fator de aumento de preços. A intervenção diária no mercado cambial é parte da política anti-inflacionária. Sem isso, seria preciso elevar os juros básicos além dos 11% em vigor, um nível considerado já muito alto. Inflação também se combate com austeridade nas contas públicas, mas isso continua fora de consideração.

A economia brasileira é hoje caracterizada por uma desastrosa conjunção de baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), inflação muito alta, exportação estagnada e um déficit próximo de US$ 80 bilhões na conta corrente do balanço de pagamentos. Esse déficit tem ficado próximo, nos últimos 12 meses, de 3,5% do PIB.

O investimento estrangeiro direto tem ficado na vizinhança de US$ 60 bilhões, bem abaixo do necessário para cobrir o buraco. Quanto maior a diferença, maior a necessidade de outros financiamentos, mais caros, para fechar a conta externa. Sobram razões, portanto, para preocupação diante da perspectiva de alta dos juros no mercado internacional. Os fundamentos da economia nacional, já ruins, podem piorar.

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