Lições a se tirar de Viracopos

O fim da longa novela da ampliação do Aeroporto de Viracopos, em Campinas - que acaba de receber do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) de São Paulo a licença ambiental prévia para o início da obra, cujo custo é estimado em R$ 823 milhões -, é um passo importante para desafogar o sistema aeroportuário brasileiro, embora ainda reste um longo caminho a percorrer para atingir esse objetivo, antes da prova de fogo que será a realização no País da Copa do Mundo de 2014.

, O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2011 | 00h00

A Infraero apressou-se a lançar, tão logo tomou conhecimento da decisão do Consema, o edital para a contratação do projeto da obra, que inclui uma nova pista e um segundo terminal de passageiros, que permitirão quase dobrar a capacidade do aeroporto. Ela passará dos atuais 5 milhões de passageiros por ano para 9 milhões. Deverão ser construídos também um pátio para aeronaves, um edifício-garagem de quatro andares e um hotel com centro de convenções.

Essas obras criarão condições para a Infraero atingir em seguida outro objetivo - transformar Viracopos no maior hub (terminal de conexões) da América Latina, o que ajudaria a desafogar o Aeroporto de Cumbica, que já opera acima de sua capacidade. As condições meteorológicas favoráveis de Viracopos são um atrativo para várias grandes companhias aéreas internacionais, o que deve facilitar a execução desse projeto.

Independentemente dele, a ampliação de Viracopos - mesmo que não esteja inteiramente pronta até 2014 - já tem uma grande importância, porque deve aliviar a sobrecarga de Cumbica e Congonhas e, assim, facilitar o plano de São Paulo de sediar a abertura da Copa. A Infraero promete concluir pelo menos 25% da obra em novembro de 2013, sete meses antes do início da Copa.

Não há como deixar de lamentar, porém, a demora no início desse projeto. Foram necessários longos 14 anos para que ele chegasse ao ponto atual. Discussões intermináveis sobre os impactos ambientais da obra, que começaram em 1997, e disputas políticas entre a prefeitura de Campinas, o Estado e a União, durante os governos que se sucederam nesse período, foram as responsáveis por essa demora, que ajudou a agravar a superlotação dos aeroportos paulistas, com sérios reflexos em todo o País.

Um projeto anterior de ampliação de Viracopos previa a desapropriação dos imóveis de 16 mil famílias, mas, diante da resistência delas e de grupos ambientalistas, ele acabou abandonado em 2007. Pelo projeto que acabou aprovado, serão retiradas do local 593 famílias de uma comunidade rural e desapropriados também 8,7 hectares de vegetação nativa de uma Área de Proteção Permanente. Durante o tempo em que ficou em exame, o projeto superou 18 ressalvas antes de conseguir sua aprovação por unanimidade pelo Consema.

A urgência desse projeto, prejudicado pela falta de agilidade dos órgãos ambientais e as picuinhas políticas, fica demonstrada pelo fato de que Viracopos cresceu sem parar nesses últimos anos. Só em 2008 e 2010, conforme reportagem do Estado, seu movimento quintuplicou e hoje ele já é o 12.º maior aeroporto do País em número de passageiros e opera voos regulares para importantes cidades, como Frankfurt, Paris e Lisboa.

A lição a se tirar desse caso é que, se os órgãos ambientais e as autoridades de diversos níveis que têm uma parcela de responsabilidade na reforma e ampliação do sistema aeroportuário não agirem com maior presteza, dificilmente se evitará que ele entre em colapso durante a Copa, ou antes mesmo dela. A pouco menos de quatro anos desse evento, o cenário dos nossos aeroportos já é de pátios de aeronaves congestionados e salas de embarque superlotadas.

Dos R$ 6,7 bilhões que a Infraero teve para investir no período de 2003 a 2010, só R$ 2,65 bilhões - ou 39,6% - foram efetivamente gastos. Por aí se vê que, muito mais do que recursos, o que tem faltado para a solução do problema é agilidade na aprovação de projetos e competência gerencial para executá-los. E falta muito pouco tempo para corrigir os erros.

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