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Lições da Copa vista do Coliseu

PAULO, SOTERO - O Estado de S.Paulo

15 Julho 2014 | 02h 04

Nada como a visão do Coliseu de Roma, a arena original, onde estive no dia seguinte ao humilhante 7 a 1, para ver em perspectiva o que de ruim e de bom aconteceu na Copa. Diante de tão grandiosa ruína, é imperativo reconhecer que fomos anfitriões e espectadores voluntários do grande circo e realizamos um belo espetáculo. Os leões comportaram-se, os centuriões atuaram, por uma vez, com competência e as cenas de violência resumiram-se a mordida e um joelhaço dados por gladiadores. Acolhemos milhares de visitantes estrangeiros com a simpatia contagiante pela qual somos conhecidos mundo afora. E nos divertimos à grande, até o fatídico mineiraço. Não temos, pois, do que reclamar.

Aos trancos e barrancos, deixando mortos e feridos no caminho e expondo nossos problemas de planejamento e execução de projetos de infraestrutura, entregamos o essencial do muito que foi prometido. Poderíamos ter feito melhor. Oito estádios teriam bastado - e nos poupado dos elefantes brancos com os quais não sabemos agora o que fazer. Não foi por falta de aviso. Um ano atrás, os mais lúcidos entre nós foram às ruas para alertar que havia algo errado em concentrar tanta energia e dinheiro público no efêmero espetáculo, ante uma economia que já derrapava e tantas outras coisas importantes com que se preocupar. Preferimos seguir em frente, embasbacados pela ilusão do hexa, que continuamos a alimentar mesmo depois que o escrete canarinho mostrou, nas primeiras contendas, que não estava preparado para enfrentar adversários fortes e poderia fazer feio nas lutas decisivas.

Surpreendentemente, até a presidente Dilma Rousseff, que não é boa de circo, deixou-se iludir. Seu antecessor e mentor, que adora um coliseu e às vezes passa a impressão de que se acha um César, chegou à prepotência de cantar vitória antes da hora. "Vamos ganhar esse caneco porque o Brasil está precisando", disse ele em 24 de junho a um fórum de empresários.

Na verdade, o Brasil não estava nem está precisando do troféu. Tem a maior coleção desses canecos e passará muito bem sem mais um, especialmente se tirar as conclusões certas sobre a Copa e passar a colecionar láureas mais valiosas.

Poderíamos, antes de nos encantarmos novamente com a busca do santo graal do futebol, trazer para casa um par de Prêmios Nobel e trabalhar para pôr uma dúzia de nossas universidades entre as 200 melhores do mundo. Inspirados pelo muito de bom que fizemos desde o restabelecimento da democracia e da conquista da estabilidade econômica, que prepararam o caminho da redução da pobreza e da desigualdade, deveríamos investir mais e melhor na educação de nossos jovens, na saúde de nosso povo, na qualidade do gasto público e em empresas padrão Embraer, integradas nas cadeias produtivas globais de alto valor agregado.

Ganharíamos também aprendendo as lições deixadas pelo torneio encerrado no domingo com o merecido triunfo dos germânicos.

A primeira delas foi ensinada pelo Romário, ex-gladiador campeão do mundo, que pôs a fama ganha nas arenas do passado a serviço de boas causas no Congresso Nacional. "Estou há quatro anos pregando no deserto sobre os problemas da Confederação Brasileira de Futebol, uma instituição corrupta gerindo um patrimônio de altíssimo valor de mercado, usando nosso Hino, nossa Bandeira, nossas cores e, o mais importante, nosso material humano, nossos jogadores", afirmou o indignado tribuno, dirigindo-se à "galera" de seu coliseu virtual na internet. "Um bando de ladrões, corruptos e quadrilheiros", acusou Romário, referindo-se aos promotores e aproveitadores do evento, que agem com frequência com a cumplicidade, quando não a ajuda direta, de políticos padrão mensalão.

Feliciano Guimarães, um jovem professor da Universidade de São Paulo (USP), ofereceu outra importante lição. "O nacionalismo futebolístico é deletério por aqui (...) e chegou ao limite", escreveu ele a seus amigos no Facebook, sob o impacto do desastre de 8 de julho. Feliciano referia-se aos efeitos nocivos do protecionismo que beneficia nossos técnicos monoglotas e seus padrinhos da CBF, mas prejudica o futebol nacional, mantendo-o impermeável às inovações dos métodos de treinamento e estratégias de jogo desenvolvidos na Europa, onde hoje se cultiva o que há de melhor e mais avançado no esporte.

O conselho de Feliciano em favor de uma abertura do mercado futebolístico brasileiro repercutiu bem e é um bom legado do Mundial, especialmente porque se aplica a outras áreas da vida nacional. Uma delas é a própria universidade. Outra, a economia, que, a exemplo do futebol, também chegou ao limite e precisa urgentemente integrar-se ao mundo de forma mais eficiente e produtiva para atrair tecnologia, integrar conhecimento, ganhar competitividade internacional e superar a atual mediocridade. É bacana ser a sétima economia do mundo. Mas, para citar expressão chula usada recentemente por um grande líder brasileiro, é babaquice vangloriar-se disso sabendo que o Brasil ocupa a 25.ª posição no ranking global das exportações e representa menos de 1,5% do comércio mundial.

Previsivelmente, o conselho aberturista foi mal recebido em Brasília, onde se defendeu na semana passada o fim da exportação de nossos jogadores e um isolamento ainda maior. Mas o fato incontornável é que o sucesso da Copa dá força à advertência do professor da USP. Até porque, agindo de livre e espontânea vontade, assumimos o compromisso de nos expor novamente ao julgamento do mundo daqui a dois anos, quando hospedaremos a Olimpíada, um evento esportivo mais significativo e universal do que a Copa, pois é melhor medida das qualidades das sociedades em que se formam os atletas e suas equipes e da atenção e do apoio que seus países lhes dedicam.

JORNALISTA, É DIRETOR DO

BRAZIL INSTITUTE DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL

CENTER FOR SCHOLARS

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