Limites da vitória de Macron

Nada garante que seus aliados aceitarão seu programa de reformas econômica, política, trabalhista e da previdência social, com o qual pretende tirar o país da crise

O Estado de S.Paulo

09 Maio 2017 | 03h06

A vitória de Emmanuel Macron nas eleições presidenciais francesas, apesar dos números muito favoráveis, que foram além das expectativas mais otimistas – 66% contra 33,94% para sua adversária Marine Le Pen –, provocou duas reações. Uma, imediata, de alívio tanto no país como na União Europeia (UE), pelo grande temor das consequências políticas e econômicas da aplicação do programa da Frente Nacional, partido de extrema direita de Le Pen. Outra, de apreensão, por causa das enormes dificuldades que esperam Macron, que herda um país em crise e dividido e sem maioria parlamentar, com um partido ainda em formação.

Nos dois discursos que fez – um, mais formal, logo após o anúncio do resultado da eleição, e outro de comemoração, para uma multidão reunida diante do Museu do Louvre – o presidente eleito deu mostras de estar consciente tanto dos limites de sua vitória como das dificuldades que o aguardam. Limites que começam com a realista constatação que fez de que a folgada margem que o separou de sua concorrente está longe de ser composta apenas de votos dados a ele e seu programa de centro, rotulado ao mesmo tempo de liberal e social por um candidato que proclamou não ser de direita nem de esquerda.

Agradeceu, sem rodeios, aos que nele votaram sem concordar com suas ideias, deixando claro saber que por isso não recebeu deles um cheque em branco. Eles votaram contra Le Pen, por temor de seu extremismo, seu patriotismo racista e sua promessa de abandonar a UE. E citou também os trabalhadores que votaram em Le Pen – e eles não foram poucos – porque veem seus empregos ameaçados pelas transformações por que passa a economia. Outro dado importante a considerar é que a soma de abstenções, votos brancos e nulos chega a um terço do eleitorado.

Esses limites vêm se somar aos obstáculos que Macron terá de superar para dispor dos instrumentos políticos indispensáveis para resolver os problemas de um país às voltas com uma difícil situação econômica, responsável por desemprego que atinge 10% da força de trabalho e que apenas dá sinais muito tímidos de melhora. Macron toma posse dia 14, com pouco tempo para formar o governo, e logo terá de enfrentar seu primeiro grande teste, que muitos veem como tão importante quanto chegar à presidência: o das eleições legislativas dentro de um mês.

Macron – que em apenas um ano fundou um movimento e obteve a expressiva vitória de domingo passado, aos 39 anos, sem apoio de nenhum grande partido – mudou significativamente a vida política francesa, que nos últimos 40 anos oscilou entre a chamada direita tradicional e o Partido Socialista, ambos fragorosamente derrotados. Apesar disso, eles continuam parte importante do jogo, principalmente a direita do partido Republicanos, menos afetado. Com isso, mais o crescimento da Frente Nacional e a entrada em cena do partido de extrema esquerda França Insubmissa, que obteve excelente votação, não será fácil a tarefa de Macron de eleger uma grande bancada para seu novo partido, En Marche!.

Macron poderá surpreender mais uma vez, como muitos acreditam. Mas, se for obrigado a governar com uma coalizão, sua situação se complicará, porque nada garante que seus aliados aceitarão seu programa de reformas econômica, política, trabalhista e da previdência social, com o qual pretende tirar o país da crise.

A UE, a começar pela Alemanha, e os mercados financeiros suspiraram aliviados com a vitória de Macron. Mas esse alívio pode ser passageiro. Tudo vai depender agora dos avanços a serem conseguidos, ou não, por ele. Todas as hipóteses estão abertas. Se Macron malograr ou só obtiver resultados tímidos, porém, será difícil evitar a progressão da Frente Nacional e sua influência no crescimento ainda maior de movimentos de extrema direita já bem implantados em países como Holanda, Áustria, Hungria e Polônia.

É disso que depende, numa larga medida, o futuro da UE, com todo o peso que, apesar de seus problemas, ela tem no mundo.

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