Lula lá de novo?

Na Inglaterra, o Poder Judiciário não tem a força coercitiva que tem por aqui, no Brasil. Ele é exercido pela Câmara dos Lordes e sua autoridade é lastreada nos usos e costumes então em vigor. Dá certo, entre outros motivos, porque sempre deu certo. Existe, ali, um arranjo que, tal qual um cipreste, demandou centenas de anos para crescer e se desenvolver. Para derrubá-lo, não basta um vendaval ou mesmo uma ventania. E quanto à força dos usos e costumes, há de sempre ser lembrado que eles não cresceram ao léu. Pode-se afirmar, com total convicção, que é muita pretensão a nossa desejar virar o mundo do avesso, ignorando toda a experiência, os ajustes e o processo de tentativas e erros obtidos em milênios de civilização.

João Mellão Neto*, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2014 | 02h04

Na história humana, os grandes avanços sempre se deram pela evolução, nunca pela revolução. As grandes revoluções, como a francesa e a russa, sempre foram muito eficientes na derrubada das instituições que já existiam, mas nunca souberam como colocar outras, melhores, em seu lugar.

Sir Isaac Newton, quando indagado sobre como conseguira formular a Teoria da Física Mecânica, respondia que nada fizera demais, apenas ficara de pé sobre os ombros de gigantes. E quantos foram os gigantes que o precederam? Uma longa fila, a partir de Sócrates, Platão, Aristóteles, Arquimedes e tantos outros mais a perder de vista, cada um tendo contribuído com o seu quinhão.

Os usos e costumes, assim, prestam uma reverência ao passado. São o que Lord Dahrendorf, alemão de nascença, comparou a fios de alta tensão. Eles são, aparentemente, inofensivos. A ponto de os próprios pássaros neles pousarem. Mas basta que alguém se aventure a neles tocar para que eles descarreguem uma violenta carga de energia, no mais das vezes, fatal. No caso inglês de que tratamos agora, o Direito costumeiro tem se revelado de grande eficácia na distribuição de justiça, ao contrário do nosso Direito, de base positivista. O recente julgamento do "mensalão" pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em que poucos e raros foram os condenados, é um eloquente exemplo desse fenômeno.

Esta introdução toda, no entanto, é para comentar as recentes declarações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Rádio e Televisão de Portugal (RTP). Para quem não se recorda, ele disse, com todas as letras, que o julgamento do "mensalão" teve "praticamente 80% de decisão política e 20% de decisão jurídica". Nesse seu esforço para desqualificar o processo, louve-se nele a sua sempre sofrível tentativa de valer-se da aritmética. De mais a mais, com que régua o ex-presidente teria estabelecido tal resultado? Realmente, 80 + 20 = 100. Da mesma forma que 100 - 20 = 80.

Assim sendo, dada a exatidão dos cálculos, como foi que ele chegou lá? Não me consta que ele tenha tamanho conhecimento em aritmética. Tampouco conhecimento jurídico - vide as recorrentes afrontas à lei protagonizadas por aqueles que, por mais que ele jure de pés juntos que não, eram gente da sua confiança.

Lula, enquanto presidente, sempre divertiu a Nação com as suas impropriedades e enormidades. Tudo nele era perdoado em razão de seu passado humilde. Quem não se lembra da "épica" explicação dada por ele, num evento na África, de como a poluição produzida por um país afetava os demais países por causa do fato de a "Terra ser redonda e girar", fazendo com que todos fossem obrigados a passar por baixo daquela poluição?

Hoje, tudo isso não conta mais. Quando o seu nome desponta entre os mais cotados para vir a substituir Dilma Rousseff, porém, fica a pergunta: ele de novo?

Este "ele de novo" está eivado de significados. Um deles é o de prorrogar a permanência desta turma no poder por, no mínimo, mais quatro anos - isso está, evidentemente, acima da capacidade de resistência da Nação. Mais um "mensalão" ninguém aguenta. Fora todas as outras atrocidades que certamente continuariam a ser cometidas contra nosso bom senso e nossos bolsos. Uma mistura que inclui incompetência, letargia e escândalos de corrupção. A conta a ser quitada vai muito além das fronteiras de nossa imaginação. E certamente da habilidade aritmética do nosso ex-presidente.

A "mais valia" governista assustaria até os mais ferrenhos marxistas. Atualmente ela se encontra em quase 40% de todas as riquezas produzidas no País. Com mais quatro anos de governo "lulopetista", sabe lá Deus onde vai parar.

Mas a possibilidade de uma eventual troca de candidatura, da nossa atual presidente pela de Lula, é real. E será ainda mais se a sua "análise aritmética" concluir que as chances de Dilma Rousseff sair derrotada pelas urnas aumentaram. Lula certamente seria um candidato menos derrotável. Não creio que o PT morra de amores por Dilma, o problema maior seria como convencer a população de que fora, mais uma vez, "apunhalado pelas costas" por um de seus companheiros. Do contrário, por que haveria de substituí-la? Não tinha sido ela a grande "gerenta" responsável pelo suposto sucesso do seu governo?

Assim sendo, vamos, com todo respeito, propor a Lula um pacto de cavalheiros. Faltam ainda alguns meses para o sufrágio de outubro. A tendência apontada nas pesquisas é de que haverá um bolo geral. Ninguém pode apontar, desde já, quem se sairá melhor nesse enfrentamento.

A proposta é a seguinte: ele desiste de disputar o pleito e, em troca, nós lhe providenciaremos uma "super Bolsa Família". Não sei se seria o mais justo, mas certamente nos custaria bem menos do que a sua presença, e a de todos os seus aliados, no comando do País. Talvez se, na hora de escolher seus companheiros, tivesse ele invertido sua equação e feito um julgamento 80% jurídico e 20% político, seu fim pudesse ser um pouco mais digno...

*João Mellão Neto é jornalista, foi deputado, secretário e ministro de Estado.

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