Lula ministro é como um golpe

Meu assunto hoje era outro e até já tinha pronto o artigo, em continuação da minha série sobre uma estratégia para sair da crise por que passa o Brasil. Mas antes de enviá-lo soube que o ex-presidente Lula “aceitou o convite” de Dilma Rousseff para ser ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República. Sob o impacto dessa notícia, optei por este texto.

Roberto Macedo*, O Estado de S.Paulo

17 Março 2016 | 03h00

Acima, não chamei Dilma de presidente. Tudo indica que, pela forte personalidade e pelo prestígio político de Lula e da ascendência que tem sobre ela, estamos diante de algo como um golpe político, pois sem ter sido (re)eleito ele se afigura agora como presidente de fato, ainda mais nesse cargo, pelo qual passa tudo o que é feito no Palácio do Planalto. Se responsável só pela coordenação política, seria outra história.

Suponha que o leitor seja um político de prestígio ou presidente de uma grande entidade de classe e tenha uma questão a apresentar à Presidência. Vai querer falar com quem?

Sou um cidadão também economista, uma profissão que no Brasil sempre tem coisas interessantes e insólitas para examinar. Neste caso, além desse dano ao regime democrático brasileiro, meu maior temor é quanto ao futuro da política econômica. Com a volta de Lula ao Executivo, nessa posição e em face das críticas e propostas alternativas que ele e seus apoiadores partidários vinham fazendo à política delineada pelo atual ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, é de temer por coelhos malucos a saírem da produtiva cartola do ilusionista-mor, como uma ampliação do desajuste fiscal. Digo política delineada porque permanecem dúvidas quanto à sua efetividade, e uma das propostas mais importantes de Barbosa, a de uma reforma previdenciária, não foi encampada seriamente pelo governo e é abominada pelo PT. Quanto a Lula, não nego uma tênue esperança, pois no seu primeiro mandato fez uma minirreforma na área.

Acerca da proposta do PT de utilizar reservas externas para gastos governamentais de infraestrutura, elas são do Banco Central, que, se vendesse parte delas, não poderia legalmente usar o dinheiro para financiar o governo. Mas será que essa regra virará letra morta, como outras, por força do ciclismo fiscal empreendido por Dilma com suas pedaladas e aceleradas não reprovadas por Lula?

Não sem razão, desde segunda-feira os mercados já reagiam diante da perspectiva de ter Lula no governo, e o dólar a subir de preço, num processo que se mantinha ontem com a confirmação da notícia e até o momento em que eu concluía este artigo. A propósito, acabo de ser informado de que, com o dólar que chegou a R$ 3,63, o Banco Central teve um ganho de R$ 38,3 bilhões nas suas operações de swap cambial nos 11 primeiros dias de março. Mas, mantida a direção da semana em andamento, esse lucro pode cair, sumir ou virar um novo prejuízo.

Entre outros desdobramentos, também podem sobrevir um aumento da inflação e dificuldades de rolagem da dívida pública, que talvez tragam a necessidade de ampliar a taxa de juros para essa rolagem, agravando a situação fiscal.

Mais uma vez me senti enganado pelos discursos e pelas panfletagens petistas, pois vinham gritando “não vai ter golpe” e agora vamos ter de engolir algo nessa linha. Para vender esse peixe malcheiroso vai ser necessário mais do que o talento ilusionista de João Santana, agora fora de ação. Só o chefe mesmo, com suas narrativas mágicas e sua recente personificação de uma jararaca, que agora mordeu forte. Mas com o risco de ser contaminada pelo próprio veneno.

Não sou daqueles que acham que Lula chegou lá para ter o foro privilegiado do Supremo Tribunal Federal (STF) e escapar dos rigores do juiz Sergio Moro em impor a lei também a quem recorre a carteiradas documentais ou de dinheiro. Mas é um dos riscos que a opção por assumir esse cargo pode trazer. O STF pode ver uma provocação nessa hipótese de que seria mais lento ou leniente e adotar uma atitude em contrário.

Entendo que a motivação é de fato o estado mais que lastimável do desgoverno Dilma. Ela precisa de ajuda no plano político e, como último recurso em face de sua incompetência nesse e noutros ramos, recorreu a seu criador. Este quer salvar a criatura e a sua própria pessoa, que corre o risco de naufragar com Dilma. Não sei no que vai dar, mas a ascensão de Lula ao Poder Executivo não me parece legítima, e a concordância de Dilma tampouco o é, visto que não estava na sua plataforma eleitoral, o que, aliás, não é novidade.

Ademais, o quadro econômico exige medidas impopulares, às quais Lula em geral é alérgico. Quase que só soube distribuir benesses a pretexto de benefícios sociais, mas ao mesmo tempo sacrificando o crescimento econômico por falta de mais investimentos públicos. E quando passou o bastão à discípula Dilma, ela exagerou na dose e deu no que deu, invertendo a equação, para o tudo pelo não social, e como nunca antes neste país: muitos milhões de desempregados a mais.

Pouco antes de concluir este artigo, vi na Folha de S.Paulo a notícia de que “(...) empresários não apostam em uma guinada da política econômica para a esquerda com a volta do ex-presidente Lula a Brasília, agora como homem forte do governo, como deseja o PT. Para eles (...) Lula tentará, num primeiro momento, reaproximar o governo e o partido com um discurso de retomada de crescimento”. A matéria não dá nome a esses empresários, talvez por sua opção em face do risco de suas afirmações.

Externei a minha opinião, mas este é um daqueles textos cuja análise gostaria que se revelasse equivocada. Posso até aplaudir se Lula, sem maiores danos colaterais, efetivamente tirar a economia do buraco em que rapidamente se afunda. Em 2002, como candidato, ele divulgou uma Carta ao Povo Brasileiro para dissipar a insegurança quanto ao que faria no governo. Agora, é o caso de outra na mesma linha.

*Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard), consultor econômico e de ensino superior

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.