Luzes de Acácio no mercado

A melhor solução, de acordo com esses conhecedores dos vínculos entre economia, finanças e política, terá de ser a melhor solução. Essa conclusão admirável tem sido noticiada, explicada e discutida nos meios de comunicação impressos e eletrônicos

O Estado de S.Paulo

23 Maio 2017 | 03h16

Conselheiro Acácio é o mestre. Sua influência é inconfundível nos comentários de eminentes analistas, acadêmicos e de mercado, sobre o novo cenário de riscos e sobre as saídas menos penosas da crise aberta com a delação – muito bem negociada e premiadíssima – dos controladores da JBS. A melhor solução, de acordo com esses conhecedores dos vínculos entre economia, finanças e política, terá de ser a melhor solução. Essa conclusão admirável tem sido noticiada, explicada e discutida nos meios de comunicação impressos e eletrônicos. Há três etapas no raciocínio mais frequente: 1) a saída mais simples, mais veloz e menos custosa para os negócios será a renúncia do presidente Michel Temer; 2) está pressuposta, naturalmente, a manutenção do programa de ajustes e reformas, condição essencial para a mudança sem trauma e sem prejuízo para a recuperação econômica; e 3) para atender ao segundo item será preciso negociar a composição do novo governo, com escolha de um presidente e de um ministro da Fazenda fiéis ao roteiro definido a partir do ano passado.

A partir daqui há algumas divergências. Há quem proponha a eleição do ministro Henrique Meirelles para a Presidência. Há quem prefira sua permanência no Ministério, com a seleção de um político experiente e reformista para o posto mais alto – o senador Tasso Jereissati, por exemplo.

Falta explicar, naturalmente, com quem seria combinado esse jogo e como seria a combinação, na ausência de um presidente em condições de negociar e de barganhar e, além disso, num momento de menor clareza quanto à distribuição de forças no Congresso. Como ficarão, por exemplo, os grupos contrários às políticas de ajuste e de reformas? Serão fortalecidos por adesões de parlamentares menos comprometidos com a agenda de recomposição das contas públicas? E se esses grupos se tornarem dominantes? Se o jogo virar, será mantido, por exemplo, o esforço de recuperação da Petrobrás e de reorganização das estatais ou o saque será retomado depois de uma breve interrupção? Nenhuma dessas questões parece inquietar seriamente os analistas mais citados nos órgãos de informação.

Para quem se preocupa com detalhes como esses, a fala dos entrevistados tem sido pouco esclarecedora e pouco útil para o encaminhamento das decisões políticas. Pessoas capazes de mencionar perigos da incerteza política parecem deleitar-se com a simplicidade acaciana, quando se trata de avaliar os desafios políticos.

Os efeitos da incerteza continuam visíveis no mercado financeiro, embora com menos intensidade que no dia seguinte ao do estouro do escândalo. Além disso, as projeções divulgadas ontem reproduzem as tendências observadas antes de conhecidas as delações preparadas pelos chefões da JBS.

Não houve mudança importante nos números da pesquisa Focus fechada na sexta-feira pelo Banco Central (BC). As previsões de inflação, crescimento econômico, câmbio e juros, até 2021, oscilaram quase todas na segunda casa decimal. Faltou tempo ao pessoal do mercado para ajustar as estimativas ou faltou segurança?

A prévia da Sondagem da Indústria de Transformação, publicada ontem pela Fundação Getúlio Vargas, continuou apontando elevação do índice de confiança do entrevistados. Mas essa pesquisa foi encerrada no dia 17. O resultado final sairá no dia 29. Será diferente? A mesma tendência positiva apareceu na pesquisa de confiança do empresário divulgada pela Confederação Nacional do Comércio.

Em consulta ao mercado, o BC coletou subsídios para a próxima reunião sobre os juros. Numa das questões, pede-se uma avaliação das perspectivas de aprovação da reforma da Previdência e da implementação das mudanças fiscais. Será interessante verificar se as questões – são dez temas – também serão tratadas no estilo do conselheiro Acácio ou se haverá dúvidas sobre a composição do jogo político. Por enquanto, as avaliações do mercado só têm um detalhe com algum sentido prático: ajuste e reformas são fundamentais. Como agir é outra história.

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