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Mais inflação com recessão

Pior que a previsão dos mercados, a inflação de janeiro, de 1,27%, reforçou a expectativa de mais um ano com alta de preços bem acima do limite de tolerância de 6,5% fixado pelo governo. Com os números do mês passado, a presidente Dilma Rousseff adicionou mais um par de recordes negativos à sua nada invejável coleção. A taxa mensal foi a mais alta para um mês de janeiro desde 2003, quando chegou a 2,25%. A alta acumulada em 12 meses, de 10,71%, foi a maior desde a marca de 11,02% no período encerrado em novembro de 2003. Essa taxa poderá diminuir durante o ano, mas ainda alimentará, pela indexação, a alta de preços administrados.

Em 2003, início da gestão petista, o governo se empenhou no conserto de suas contas. O Banco Central (BC) teve liberdade para agir e fez o necessário para frear os aumentos. Os tempos são diferentes. Hoje nem há segurança quanto ao esforço de arrumação das finanças oficiais nem se sabe se o BC poderá manejar livremente os juros e outras ferramentas da política monetária.

Como de costume, buscar os vilões da inflação no meio das centenas de itens cobertos pela pesquisa de preços é perda de tempo. O vilão, como quase sempre, é o governo, especialmente depois de um ano com um rombo de R$ 111,2 bilhões nas contas primárias – sem considerar, portanto, o custo dos juros. Em algumas áreas houve excesso, em outras, escassez de chuvas, mas isso explica apenas em parte o encarecimento da comida. Os preços da alimentação subiram em média 2,28% em janeiro, com impacto de 0,57 ponto na formação do índice geral. Mas o custo dos alimentos foi também afetado pela alta do dólar e pelo encarecimento dos combustíveis e dos transportes. Não dá para jogar toda a culpa sobre o El Niño.

O Comitê de Política Monetária (Copom), formado por diretores do BC, tem-se comprometido a conter os efeitos “de segunda ordem” da alta do dólar e do realinhamento dos preços administrados (como as tarifas de eletricidade e os preços dos combustíveis, entre outros). Esse compromisso tem reaparecido, com regularidade, nas atas de suas reuniões. Esse realinhamento pode ser inevitável, e até desejável, em alguns casos, mas é preciso limitar o contágio dos demais preços. A ação do BC, especialmente necessária quando se prolonga a desordem das contas públicas, tem sido insuficiente para deter a propagação daqueles aumentos. Mas pode-se confiar no combate à inflação quando o governo, aquele mesmo incapaz de arrumar suas finanças, pressiona o Copom para afrouxar a política?

Contribuir para a formação de expectativas e para dar alguma segurança aos agentes é uma das funções mais importantes de um BC, mas a maioria dos membros do Copom parece haver renunciado a esse papel, ao decidir manter os juros básicos em 14,25% em sua primeira reunião do ano.

Essa decisão contrariou todas as indicações oferecidas durante um mês e meio a analistas do mercado financeiro, de consultorias e de instituições de pesquisa. Mais que isso: ao sinalizar a mudança, na véspera da decisão, o presidente do BC, Alexandre Tombini, reavivou as suspeitas de interferência da presidente da República na política de juros.

Uma semana antes de saírem os números da inflação de janeiro, as cinco instituições com mais acertos nas previsões coletadas pelo BC estimavam para este ano uma taxa de 7,76%, inferior à do ano passado (10,67%), mas bem acima do limite de tolerância. Nem a expectativa de mais um ano de recessão – já se projeta uma contração econômica de mais de 3% em 2016 – anima os economistas a prever uma alta de preços mais civilizada.

Na maior parte do mundo, a redução da atividade econômica tem geralmente um forte efeito anti-inflacionário. No Brasil, inflação e recessão continuam coexistindo harmoniosamente, sob as bênçãos de autoridades tolerantes à alta de preços, amantes de ações voluntaristas e pouco dispostas a abandonar o populismo fiscal e financeiro, como comprovam as novas medidas de estímulo ao crédito.