Mais que petróleo, o País precisa de tecnologia

A palavra inovação frequenta documentos de governo desde 2003. No entanto, a economia apenas lentamente incorpora a inovação em sua dinâmica. Apesar dos novos programas, do aumento do investimento e dos incentivos, o País tem dificuldades para transformar conhecimento em tecnologia, com impacto real na atividade econômica.

Glauco Arbix e João A. De Negri, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2010 | 00h00

Dados recentes da Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec-IBGE) revelam que também as empresas de médio e grande porte têm dificuldades de inovar. De um total de 71,9% de empresas inovadoras com mais de 500 funcionários, apenas 4,1% são apoiadas por programas públicos de subvenção econômica ou de apoio à contratação de pesquisadores; e 4,2% conseguem apoio direto de algum instrumento público para seus projetos. Entre 2006 e 2008, não chegaram a cem as empresas que geraram inovações e foram apoiadas diretamente por algum programa público. Isso indica que o coração da economia brasileira se apoia pouco nos incentivos atuais. Pode ser que problemas existam nas duas pontas. Mas o setor público tem obrigação de avaliar - e melhorar - rapidamente o sistema de estímulo existente.

Países desenvolvidos e emergentes fazem de tudo para injetar dinamismo em suas economias. Apoiam as pequenas empresas inovadoras, investem em áreas de tecnologias críticas, fortalecem o venture capital e até criam Ministérios da Inovação. O Brasil avançou muito na infraestrutura de apoio à inovação. Porém esse esforço pode mostrar-se em vão se as novas oportunidades não forem aproveitadas.

No passado, basicamente por omissão do poder público, o Brasil não se capacitou para a microeletrônica. Por confusão, fechou-se em copas e ficou na traseira da onda da informática. Por carência de incentivos, não avançou nas telecomunicações. E agora, com o pré-sal, o País novamente tem uma chance, que se arrisca a perder se não der o passo certo. O pré-sal não se refere somente ao petróleo, mas a toda uma malha de tecnologia capaz de tornar viável sua prospecção, extração, exploração e distribuição. Malha que extrapola em muito o próprio setor.

Com o pré-sal o Brasil passou a ser mercado cobiçado. A Petrobrás será uma das maiores contratantes de equipamentos e serviços submarinos no mundo, por décadas. E grande parte do avanço tecnológico estará ligado a um setor de bens e serviços a serem utilizados no mar, conhecido como subsea. Estima-se que as aquisições brasileiras para o subsea chegarão a 25% nos próximos dez anos.

Essa realidade coloca questões estratégicas para a Petrobrás, mas também para o País. Estudos indicam que a demanda potencial da Petrobrás daria para tornar viável a criação de empresas brasileiras de alta tecnologia em várias áreas, e não apenas no setor de petróleo.

As atuais regras que definem níveis de conteúdo local se mostraram positivas para a atração de investimentos. Empresas multinacionais do setor parapetroleiro instalam novas unidades no Brasil ou ampliam as preexistentes. Gigantes como Halliburton, Schlumberger, FMC e Baker Hugues constroem centros de pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil, o que é extraordinário.

Mas essas multinacionais precisam capacitar-se para atender à demanda do pré-sal, pois as tecnologias apropriadas ainda estão em fase de criação. Para as empresas que dominam o mercado internacional do petróleo o Brasil será, além de fonte de benefícios, um imenso laboratório, em que a aprendizagem será tão relevante quanto imprescindível.

Cabem aqui perguntas simples: se as estrangeiras podem aprender, por que não as brasileiras? Será que as oportunidades são as mesmas? Não seria de interesse público a capacitação de empresas de base tecnológica de capital nacional?

Poucos sabem que cerca de 40% dos engenheiros e profissionais científicos (e quase 50% dos pesquisadores com carteira assinada) trabalham para fornecedores da Petrobrás. Ainda que nem sempre diretamente, trabalham e interagem em firmas que participam de sua rede de fornecedores. Porém dentre as grandes fornecedoras globais não desponta uma única brasileira.

Não se trata de nacionalismo rasteiro nem de crítica à Constituição, que reconhece como brasileiras as empresas aqui instaladas. Trata-se de uma oportunidade única que a História apenas raramente coloca como opção para os países. Ao preparar-se para o pré-sal, o Brasil pode alterar a qualidade de parte de sua ciência, de uma rede de empresas, de uma legião de pesquisadores, cientistas e técnicos, assim como pode estimular a indústria de bens de capital, software, nanotecnologia, telecomunicações, robótica e ambiental.

É equivocada a visão que acredita ser a tecnologia do pré-sal um assunto só de petroleiros, dado o potencial multiplicador de tecnologia e de aprendizagem envolvido.

O Brasil pode manter as regras de conteúdo local, assim como o cronograma de exploração das novas reservas. Mas pode e deve ampliar a atual estratégia, de modo a trabalhar com os investimentos compulsórios em P&D, já previstos pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), e orientá-los para a diversificação de empresas de capital nacional que atuam no setor. Dessa forma, seriam estimuladas novas competências nas áreas de bens e serviços, com ênfase nas atividades de informação sobre os reservatórios, serviços de perfuração, revestimento de poços e produção e instalação de equipamentos de subsea.

A incorporação de atividades altamente intensivas em conhecimento por empresas nacionais (mesmo que parcial) contribuirá para aproximar o Brasil dos países que atuam na fronteira tecnológica. Se é de inovação que o País precisa, o pré-sal oferece essa oportunidade gigante.

COORDENADORES DO OBSERVATÓRIO DE INOVAÇÃO DO INSTITUTO DE ESTUDOS AVANÇADOS DA USP E MEMBROS DO CONSELHO NACIONAL DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA. JOÃO ALBERTO DE NIGRI É TAMBÉM PROFESSOR DA USP E PESQUISADOR DO IPEA

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