Medicina violenta

Considerada a melhor do gênero no País e com prestígio internacional, a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) está envolvida em graves denúncias de violência sexual e agressão a mulheres. O Ministério Público Estadual (MPE) menciona a ocorrência de oito estupros nos últimos anos. A situação dentro da faculdade é tão difícil para as alunas, por causa da continuidade dos abusos e de sua impunidade, que algumas sentiram a necessidade de criar um grupo - o Coletivo Feminista Geni - para se protegerem da violência praticada desde o trote e que se perpetua ao longo do curso, sobretudo nas festas. É lamentável que tudo isso esteja ocorrendo em um ambiente no qual se formam pessoas que passarão a vida cuidando de pessoas. Não se pode tolerar esse tipo de comportamento criminoso.

O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2014 | 02h03

A gravidade das denúncias levou a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) a realizar uma audiência pública, na qual duas alunas da FMUSP relataram estupros sofridos em 2011 e 2013 em festas promovidas por alunos da "Pinheiros", nome pelo qual é conhecida a FMUSP em razão da sua localização. Uma das estudantes, de 24 anos e atualmente no 4.º ano da faculdade, afirmou ter sofrido dois estupros ao longo de 2011 em festas organizadas pelo Centro Acadêmico Oswaldo Cruz. Segundo a aluna, que integra o Coletivo Feminista Geni, um dos episódios aconteceu na semana de integração de calouros. No fim da festa, ela foi abordada por um rapaz que a levou para uma sala de materiais, escura. "Ele começou a me agarrar, a tentar me beijar", relatou. O segundo aconteceu numa festa também organizada dentro de uma área de propriedade da USP.

Outra aluna do grupo Geni relatou a forma como os trotes são feitos. "Eles separam as meninas dos meninos, colocam elas sentadas no chão e formam uma roda em volta, em pé." Em seguida, os rapazes - na maioria, veteranos - entoam um hino que contém apologia ao estupro. "Muitas delas falam que ficam com muito medo", disse a estudante.

Ao relatarem os casos, as alunas se referiram à existência de um pacto de silêncio. Garantiram que nenhum dos casos havia sido apurado e que, ao fazer as denúncias, sofreram perseguição de outros alunos. De acordo com os estudantes de Medicina ouvidos na audiência pública, a violência sexual é "internalizada" na cultura da FMUSP logo no primeiro ano.

Na audiência realizada na Assembleia, pela primeira vez as alunas se dispuseram a falar sobre os episódios em público. Antes, os relatos sobre os casos eram feitos apenas em particular, para amigos ou familiares. Diante dessas denúncias, foi instaurado inquérito pelo MPE, que solicitou à FMUSP informações sobre os trotes violentos e a violação de direitos humanos nas festas.

É inaceitável que situações como essas existam numa instituição do renome e da tradição da FMUSP. Tais atos são crimes e tolerá-los - como se fossem algo de menor importância, porque praticados num clima universitário onde as regras não seriam tão "rígidas" - equivale à cumplicidade. E esta exige punição exemplar. A mentalidade de que a preservação da imagem de uma instituição aconselharia "prudência" ou silêncio é - não há outra palavra - criminosa, pois o ambiente de impunidade é propício à perpetuação desses atos. Prestígio se constrói com competência e transparência, não com silêncios cúmplices.

Infelizmente, não é de hoje, nem está restrito à Faculdade de Medicina da USP, esse tipo de comportamento e de mentalidade que desrespeita e agride as mulheres. É hora de repensar a educação no âmbito tanto das famílias como das escolas e das universidades. Não é hora de contemporizar.

Violência sexual é crime, quer seja entre desconhecidos, quer seja entre colegas de uma faculdade. Minimizar a sua gravidade, aconselhar silêncio, fingir que foi simplesmente uma atitude "que passou um pouco dos limites" - e por isso não exige punição - são atitudes condenáveis. Inaceitáveis em qualquer tempo e em qualquer lugar, mas muito especialmente numa faculdade de medicina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.