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Editorial

Medo do futuro

É tão forte o impacto provocado pela queda do pedestal em que sempre se imaginaram que os petistas desandaram a dizer mais sandices do que nunca na tentativa de disfarçar o vexame e o constrangimento de que estão tomados. Desta vez foi o piedoso Gilberto Carvalho, um dos mais fiéis e antigos escudeiros de Lula, que perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado. A um repórter da Folha de S.Paulo que o questionou sobre as notícias de que a Construtora Odebrecht teria pagado a reforma do sítio “de amigos” que Lula costuma frequentar em “dias de descanso”, o ex-ministro de Lula e de Dilma expôs o que ia em sua alma: “É a coisa mais natural do mundo que você possa ter empresas contribuindo com essa ou com aquela pessoa”.

10 Fevereiro 2016 | 03h00

Pois é. Do mandachuva ao carregador de mala, a nata da filosofia petista acredita, do fundo do coração, ser “a coisa mais natural do mundo” as liberalidades que se tem permitido há 13 anos no trato da coisa pública – especialmente do dinheiro. Para eles, a verdade é que tudo que policiais, procuradores e juízes mal-intencionados anunciam por meio de vazamentos seletivos para a imprensa golpista é uma enorme e injusta perseguição de heróis populares.

Dá até para compreender que as pessoas mais simples, politicamente engajadas e emocionalmente envolvidas na militância petista, que aprenderam a dedicar uma admiração quase religiosa ao grande e infalível protetor dos fracos e oprimidos, tenham dificuldade de aceitar a imagem verdadeira de Lula que os fatos projetam na mídia. Mas Gilberto Carvalho não é ingênuo. Por muitos anos exerceu competentemente, como assessor direto de Lula, a função de monitorar os movimentos sociais ligados ao lulopetismo. Talvez daí lhe tenha advindo o hábito de considerar todos os brasileiros idiotas, pois só isso explica as barbaridades que proclamou sem pestanejar na entrevista publicada pelo diário paulista.

Carvalho sabe que Lula não é “essa ou aquela pessoa”. É um ex-presidente da República que pelo poder que tem sobre seu partido exerce forte influência sobre o governo. Logo, a “contribuição” de empresário que dependa de contratos com o governo nunca é desinteressada, mesmo que se trate de “um amigo”. Até porque – apesar de nada haver de errado numa genuína amizade entre um ex-presidente e um empresário –, por uma questão elementar de bom senso é recomendável que amizade e negócios não se misturem na vida pública, principalmente sob a forma de generosos, caros e inexplicáveis presentes.

Carvalho não é tolo como parece ser ao argumentar que empresários contribuem com o Instituto Lula assim como o fazem com o Instituto FHC. É o argumento petista do “eu sou, mas quem não é?”. Ele conhece perfeitamente a diferença do apoio material e financeiro dado pela iniciativa privada a instituições que se dedicam a estudos políticos, como é o caso das mencionadas, e o pagamento, por empreiteiras de obras públicas, de reformas e despesas de casa de praia ou de campo de um líder político influente no governo.

Para Carvalho, Lula não pode ser acusado de nada porque nem é proprietário dos imóveis sob investigação em Atibaia. Mas qual seria o interesse de grandes empreiteiras como a Odebrecht, conforme está comprovado, de pagar contas de uma pequena propriedade registrada em nome de dois jovens e bem-sucedidos empresários que, por coincidência, mantêm relações de amizade e negócios com um dos filhos de Lula e que generosamente permitem que os pais do sócio usem o seu sítio como se deles fosse?

A cada dia as evidências sobre ilicitudes envolvendo Lula se fortalecem – agora, ele passou oficialmente de “informante” a “investigado” –, mas Gilberto Carvalho enxerga exatamente o contrário, sem o menor receio de subestimar o discernimento e ofender a inteligência de seus compatriotas. Para ele, policiais, procuradores e juízes têm demonstrado “desvio de conduta”, pois não se sentem “praticantes da Justiça, mas justiceiros”. Apesar disso, “a cada momento vai se comprovando que a trajetória do Lula é uma trajetória inatacável, diferentemente de outros, que se enriqueceram e nunca foram denunciados”. O medo do futuro, como se vê, mexe com a cabeça das pessoas.

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