Mentiras revoltantes

Impossível esquecer a tragédia do rompimento das barragens de minérios da Samarco

*Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2016 | 03h06

O crime nos rodeia. Está em todos os pontos cardeais e o assédio é tão vasto e profundo que às vezes o confundimos com um abraço. E aí tudo se torna ainda mais terrível, pois somos envolvidos pelo engano.

Na Alemanha dos anos 1940, nos chuveiros dos campos de extermínio nazistas, o odor adocicado do gás Zyklon-B transmitia agradável sensação nos segundos iniciais do banho coletivo dos prisioneiros. Mulheres, homens e crianças respiravam fundo e enchiam o pulmão em busca do “ar puro” vindo dos chuveiros. Menos de um minuto depois se retorciam e morriam asfixiados.

O engano é o elemento mais perturbador do crime. Ou é a arma fundamental e única, sem a qual o criminoso não seria capaz de consumar seu ato. Sem o engano o crime seria quase um jogo em campo aberto, como o dos gladiadores no Coliseu de Roma – brutal e desigual, mas sem um perdedor já condenado de antemão.

Sem a mentira prévia, porém, o engano não teria o poder que tem. Num país e numa sociedade, como a nossa, em que o crime faz parte do cotidiano em diferentes áreas a mentira se tornou corriqueira, com o risco de passar a algo “natural” em todos os níveis. Isso já ocorre com o que os políticos dizem num dia e, nas semanas seguintes, se desdizem nos atos concretos.

A exacerbação da sociedade de consumo cria tolas necessidades que aceitamos piamente, sem duvidar, pois a mentira veste roupagem séria, como se fosse imprescindível.

Mas isso também tem seu lado positivo e, ao longo dos séculos, significou a marcha da humanidade em direção ao futuro. Hoje ninguém viveria como nos anos 1800, que foi o “século das luzes”. Menos ainda como em 1500, quando por aqui chegou Pedro Álvares Cabral. Algumas grandes mentiras, porém, ferem tão profundamente que nos produzem um choque que anestesia nossa capacidade de indignação.

E assim, nós – os modernos – estamos sem bússola em meio ao mar aberto e tempestuoso, numa das caravelas de Pedro Álvares Cabral, sem sabermos nos guiar pelas constelações, como ele sabia...

Os partidos políticos esquecem as diferenças e, unidos, transformam-se em gazua para abrir os cofres dourados do poder, em todos os níveis – federal, estadual e municipal. Os escândalos na Petrobrás (e outros) mostram as entranhas do monstro no conluio entre grandes empresas privadas e diferentes partidos.

A política deixou de ser prestação de serviço e virou profissão. E profissão rendosa, sem especialização, ocupada por gente dedicada a aparentar o que não é. As instituições da República se refestelam na inútil (ou pouco útil) burocracia que, em vez de facilitar, dificulta a iniciativa individual. A televisão e o rádio (até a nova música) tornam-se vetores do mau gosto, da ignorância e da violência e entram às nossas casas como ladrão solerte. As chamadas “redes sociais” seguem caminho idêntico, ou pior, transformando em cloaca a maravilha tecnológica da internet.

Neste caos em que o único apelo é consumir, os shopping centers são as novas catedrais. E como se o porre de consumo fosse o valor da vida, qualquer grupo de pessoas abre uma nova “igreja” como se abrisse um bar. Logo se atribuem títulos religiosos (“pastor”, “missionário” ou “bispo”) e vendem “milagres”, usando o genuíno sentimento religioso do povo em proveito próprio. E o que seria igreja vira corporação mercantil, nova espécie de S. A. destinada ao lucro.

Neste ambiente de igrejas sem teologia, partidos sem doutrina nem ideologia e grandes empresas sem escrúpulos, abre-se o caminho para o descontrole pessoal e social. Mata-se para roubar o tênis “de marca”, ou se estupra “para ver como é”, na violência brutalizada pela droga, sob o comando do narcotráfico.

Não cabe aqui um retrospecto do horror. Que cada qual examine ao redor e conclua!

É impossível, porém, esquecer a tragédia que completa agora um ano e marca nosso escárnio perante a vida: o rompimento das barragens de resíduos de minérios da Samarco no interior de Mariana, em Minas Gerais. Ali está o retrato de corpo inteiro da desídia geral, da tresloucada ânsia de lucro a qualquer custo aliada à impostura governamental.

Nem o livro do Apocalipse de São João descreveu o horror terrorífico da destruição quanto a realidade daquele 5 de novembro de 2015. Como se não bastasse o que as profundas crateras da mineração destroem, a lama ácida apropriou-se de tudo.

Destruiu o povoado de Bento Rodrigues, invadiu terras cultivadas e bosques, subiu ao topo das árvores, matou pássaros, exterminou flora e fauna. Ocupou córregos, riachos e rios. Transformou em depósito de metais pesados o imenso Rio Doce, poluído talvez por muitos séculos – a areia das praias e a terra dos barrancos misturando-se ao chumbo, mercúrio e outras pestilências.

Impermeabilizado pela lama pegajosa, o leito do rio hoje é marrom, tal qual suas águas, que chegam mortas ao oceano, onde a lama ocupa praias, se decanta no leito marítimo e toma todas as direções. Ao norte, foi vista na Paraíba. Ao sul, no Estado do Rio de Janeiro.

Há um ano duas “barragens” se romperam, mas outras cinco lá estão e podem multiplicar a tragédia. Houve “obras novas de contenção”, mas persiste a causa originária do horror: os métodos de exploração são ainda quase tão primitivos quanto nos anos do Brasil colônia, mesmo sofisticados na aparência das máquinas e dos mastodônticos caminhões transportadores.

As minas são concessão do Estado e os órgãos governamentais impuseram à Samarco multas de bilhões (que nunca serão pagas), como se isso recuperasse a natureza assassinada. Mas nada se impôs para modificar as formas de mineração e aperfeiçoá-las para que deixem de ser simples maldição lucrativa a céu aberto.

A mentira e a desídia não são apenas visíveis e gritantes, mas – sim – revoltantes.

*Jornalista e escritor, prêmio jabuti de literatura em 2000 e 2005

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