Mercado de trabalho ainda piora

Se havia esperança de rápida melhora no mercado de trabalho, ela foi desfeita. Agora são 14,2 milhões sem ocupação

O Estado de S.Paulo

29 Abril 2017 | 03h01

Se havia esperança de rápida melhora do mercado de trabalho, ou pelo menos alguma expectativa de surgimento de indicações de que a situação parou de piorar, elas foram desfeitas pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, o mais abrangente conjunto de dados sobre emprego e renda no País que acaba de ser divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). São agora 14,2 milhões de trabalhadores sem ocupação, o que significa que, no período de apenas um ano, 3,1 milhões de brasileiros foram incorporados ao contingente de desempregados. A taxa de desocupação foi estimada em 13,7% no primeiro trimestre do ano, a mais alta registrada pela Pnad Contínua, com aumento de 1,7 ponto porcentual em relação ao dado do trimestre imediatamente anterior e de 2,8 pontos sobre o primeiro trimestre de 2016.

Nada melhorou nos primeiros três meses de 2017. Na verdade, praticamente todos os principais indicadores, excetuados os referentes ao rendimento, pioraram. Isso aconteceu tanto em relação ao trimestre anterior como na comparação com igual período do ano passado, com os índices atingindo, na maioria, seu pior resultado desde que a pesquisa começou a ser feita, em 2012. A deterioração do mercado de trabalho pode ocorrer com rapidez, como vem acontecendo há algum tempo, mas sua recuperação, que ainda nem começou, tende a ser lenta, o que projeta um cenário preocupante para os próximos meses.

O atual é, por si só, motivo de grande preocupação. O desemprego atinge duramente o mercado de trabalho formal, no qual estão assegurados direitos e mecanismos de proteção social aos empregados. No primeiro trimestre do ano, o número de empregados com carteira assinada foi de 33,4 milhões de pessoas. Em relação ao trimestre anterior, esse número mostra que 599 mil brasileiros perderam emprego formal; em um ano, foi eliminado 1,2 milhão de empregos com carteira assinada.

A deterioração do mercado de trabalho não é apenas quantitativa, mas sobretudo qualitativa. “Perder postos de trabalho com carteiras assinadas significa perda de arrecadação da Previdência, perda de acesso ao seguro-desemprego, perda de garantias trabalhistas”, lembrou o coordenador da pesquisa do IBGE, Cimar Azevedo.

A força de trabalho, que reúne as pessoas ocupadas e as desocupadas, alcançou 103,1 milhões de pessoas, a maior da série, com aumento de 1,4% em relação ao primeiro trimestre de 2016. Mas esse crescimento, ressalvou o IBGE, se deveu exclusivamente ao aumento da população desocupada.

Os ainda tênues e localizados sinais de recuperação da atividade parecem ter estimulado muitas pessoas que estavam fora do mercado de trabalho, por desalento em relação ao quadro econômico, a procurar emprego. Desse modo, essas pessoas fizeram crescer a força de trabalho. Mas a resposta da economia, em termos de geração de emprego, tem sido lenta, de modo que cada trabalhador que se reincorporou recentemente à força de trabalho, da qual se afastara quando não tinha esperança de encontrar ocupação, engrossou o contingente de desocupados, fazendo crescer a taxa de desemprego.

A piora só não ocorreu com relação à renda. O rendimento médio real habitual no trimestre encerrado em março não variou em relação ao trimestre e ao primeiro trimestre do ano passado. Também a massa de rendimento real habitual se manteve estável.

A situação do emprego e da renda é um retrato, talvez com alguma defasagem, da situação econômica. “Tudo que acontece no mercado de trabalho é reflexo do cenário econômico conturbado, do cenário político instável”, resumiu o coordenador do IBGE. “São coisas que desestabilizam.”

Esse resumo mostra a importância que, na crise por que passa o País, o comportamento dos políticos tem sobre a vida das pessoas. É preciso que eles ajam com a responsabilidade que deles se espera para estabelecer, no que depender de suas decisões, as condições necessárias ao crescimento econômico e, consequentemente, à geração de empregos.

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