Monumento ao vandalismo

Toda as vezes que acontece alguma manifestação de protesto em São Paulo, temo primeiro pela segurança das pessoas. Mas temo também pelas nossas obras públicas. Há, de maneira geral, uma falta de respeito generalizada por estátuas, esculturas e monumentos da cidade. Vou aqui me ater a comentar o que acontece sempre com um deles, o Monumento às Bandeiras, obra singular e histórica de Victor Brecheret. Sem vigilância, a famosa obra fica à mercê do caos que se instalou em São Paulo. Ora escalam a estátua, ora picham, ora fazem alpinismo, rapel, o que querem, sem que ninguém tome nenhuma providência. Um dia, fatalmente, penso eu, um maluco a escalará com um martelo na mão. Aí será tarde demais.

Roberto Dualibi, O Estado de S. Paulo

16 Maio 2015 | 03h00

Invariavelmente, os atos de vandalismo tornaram-se despesa de restauração para os cofres públicos e quem paga a conta, naturalmente, somos todos nós. Uma simples pesquisa nos sites de busca, relacionando o Monumento às Bandeiras a pichações, manifestações ou vandalismo, vai revelar, de pronto, um rol de notícias que nos envergonham a todos e não encontram justificativa.

Fiquei triste, por exemplo, numa segunda-feira longínqua, quando as unhas de um dos personagens da obra do escultor ítalo-brasileiro foram pintadas de azul. Usaram giz de cera, o que é horrível de ser removido depois que se fixa na pedra. Outra vez, picharam o monumento porque eram contra uma PEC de número 215. Houve um dia em que a obra foi atacada duas vezes num prazo de 24 horas.

Eu queria entender o que leva uma pessoa a fazer um ato desses. Certamente a maioria não tem sequer a informação histórica sobre a obra nem tem a consciência de que um bem público pertence a todos. Trata-se de um patrimônio artístico e cultural da cidade. Muitas vezes fazem isso para se mostrar aos amigos, apenas para praticar o vandalismo, para exercitar o quebra-quebra. Outras vezes agem tão somente sob a ótica de que o que é público não pertence a ninguém. Pior é saber que tudo isso poderia ser evitado se nossas praças públicas tivessem um mínimo de policiamento e zelo.

O Monumento às Bandeiras, até por sua expressão e representatividade, é o primeiro que me vem à mente quando se fala em desrespeito público. Mas vejam o caso do Monumento da Independência, no Ipiranga, ou o Monumento a Duque de Caxias na Praça Princesa Isabel. A estátua não tem nenhum programa de proteção ou conservação. A tal ponto que o próprio patrono do Exército, se fosse possível, num ato de realismo fantástico, apearia do cavalo e ele mesmo procederia à lavagem e restauração da montaria. Em países minimamente civilizados dá gosto ver as praças públicas e suas estátuas, são logradouros que denotam o esmero dos governantes com o que é de todos.

Mais recentemente o Monumento às Bandeiras foi pichado durante manifestação contra a alta das tarifas de ônibus. Já houve pichações até mesmo para questionar o próprio significado da obra, questionar um fato histórico das expedições – quando a picharam com a expressão de um ex-ministro paraguaio, “bandeirantes assassinos”. 

Só com solventes a Secretaria da Cultura deve gastar uma fortuna toda vez que precisa corrigir essas barbaridades, fora o trabalho de equipes terceirizadas contratadas para o serviço de limpeza.

Nas minhas buscas descobri já em 2006 pichações por vândalos. Escreveram o nome Vicente. Naquele ano, dois rapazes foram detidos, mas, como sempre, não deu em nada. Não há policiamento nem vigias, nem um guardinha, nem câmeras, nem outro sistema de proteção. Nem mesmo um apito. Por tudo isso, um cenário absolutamente lindo fica à mercê de qualquer grupo disposto a depredá-lo.

Até quando morreu o cantor da banda Charlie Brown Jr., um pseudofã escreveu “Chorão” e a palavra “paz”. Será que o cantor iria querer algo desse tipo para ser lembrado? Com certeza, não.

O “Empurra-empurra” ou “Deixa que eu empurro”, como passou a ser popularmente conhecida a escultura de Victor Brecheret, veio junto com o Parque do Ibirapuera em 1954, durante as comemorações do quarto centenário da cidade. Ela representa os bandeirantes, os colonizadores e suas etnias, ou seja, há ali um pouco de todos nós, portugueses, negros, imigrantes, mamelucos, índios. São 50 toneladas que exigiram uma quantidade enorme de horas de trabalho. Feita de granito, que é um material poroso, a obra tinha o propósito de lembrar os responsáveis por iniciar o povoamento do território brasileiro nos séculos 17 e 18. E lembra hoje o amor que Prestes Maia e os paulistas de então tinham por nossa cidade.

Há uma falta generalizada de ações para cuidar da nossa cidade. As ruas estão esburacadas, as placas caindo, os semáforos piscando, a iluminação apagada de noite. O mato domina praças, brinquedos e aparelhos de ginástica quebram e lá ficam sem manutenção. A falta de uma política de conservação e cuidados com os nossos monumentos públicos é apenas mais um item entre tantos outros que faltam. Sem contar a falta de segurança e a sensação de que nada está sendo feito para melhorar as coisas. O problema com os monumentos é, portanto, apenas mais um daqueles que, entra ano, sai ano, e nada acontece. Assim como tantos outros problemas que nos afetam e nos indignam.

Enfim, de novo falta zelo, uma palavra há tanto esquecida no vocabulário dos nossos governantes. Um simples passeio pela cidade mostra o quanto estamos distantes de ter uma relação satisfatória entre os impostos que pagamos e os benefícios que recebemos. Num momento em que se volta a falar em mais tributos, dá arrepios saber o que será feito com mais dinheiro ainda. O problema não é o volume de recursos, nem a falta deles, mas a forma como se gasta o nosso dinheiro. 

*Roberto Dualibi é publicitário, fundador da DPZ

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