Moscou socorre Assad

Além de exercer o direito de espernear em protesto pela derrota diplomática sofrida sábado no Conselho de Segurança (CS) da ONU - quando a Rússia e a China vetaram um já esvaziado projeto de resolução pedindo uma "transição política" na Síria -, os EUA e seus aliados na Europa e no Golfo Pérsico pouco podem fazer, de imediato, para ao menos deter as atrocidades por atacado do regime de Bashar Assad contra os redutos da oposição do país. A secretária de Estado americana Hillary Clinton considerou o resultado da votação no CS "uma caricatura". Foi, na realidade, uma humilhação.

O Estado de S.Paulo

07 Fevereiro 2012 | 03h07

A primeira versão do projeto ia além do endosso com todas as letras do plano da Liga Árabe - pelo qual Assad transferiria o poder para o seu vice, o praticamente desconhecido Farouk al-Shara. Este formaria um governo de união nacional incumbido de convocar eleições gerais em dois meses, com supervisão internacional. O texto dava 15 dias de prazo para o ditador cumprir a decisão. Do contrário, o CS estaria autorizado a adotar "medidas adicionais", em entendimentos com a Liga. A resolução exortava ainda a comunidade internacional a suspender as remessas de armas para a Síria. O principal fornecedor de Damasco é a Rússia - aliada do clã Assad desde os tempos da União Soviética e detentora de uma base naval em Tartus.

Tratava-se de um rascunho para ser abrandado, a fim de que os russos (e os chineses) trocassem o veto anunciado pela abstenção. De fato, nos dias seguintes, os diplomatas ocidentais fizeram concessões em cima de concessões. A referência ao suprimento de armas foi cortada. As garantias de que a resolução desta vez não se destinava a criar condições para uma intervenção armada na Síria - como aconteceu na Líbia - foram reforçadas. Enquanto a versão original afirmava, numa linguagem contorcida, que "nada nessa resolução compele os Estados-membros ao uso ou ameaça da força", o texto final consignava a intenção de resolver a crise síria "sem intervenção militar estrangeira".

Mais importante ainda, sumiram todas as referências ao plano da Liga Árabe, como a que previa a transferência do governo de Damasco para o vice de Assad. Para a oposição síria, a aprovação de um documento assim desdentado e nada seriam praticamente a mesma coisa. As concessões dobraram as resistências de membros não permanentes do CS, como Índia, Paquistão e África do Sul. Mas os 13 votos afinal a favor, em 15 possíveis, foram uma vitória de Pirro diante dos vetos de Moscou e Pequim. Para esfregar sal na ferida dos defensores de um pronunciamento qualquer da ONU sobre a Síria, em convulsão há quase 11 meses, na véspera da reunião o Exército bombardeou o baluarte oposicionista de Homs, 160 quilômetros a oeste de Damasco, como se fosse a capital de um país com que a Síria estivesse em guerra. Morreram entre 200 e 300 pessoas. A investida prosseguia ontem.

O ataque a Homs, não o primeiro, porém o mais feroz até então, pôs em evidência o fato de que o conflito sírio mudou de figura. Já não consiste em protestos civis de rua, geralmente pacíficos, reprimidos selvagemente. Hoje há uma guerra de atrito envolvendo organizações armadas rebeldes, a começar do Exército Síria Livre, e tropas regulares do governo. Os insurgentes, à maneira das guerrilhas, ocupam posições - chegaram a se instalar na periferia de Damasco - das quais certamente serão desalojados ao preço de um desgaste presumivelmente crescente do regime. As vítimas mais numerosas, como sempre, são civis. Noticiou-se ontem que a ONU parou de compilar as baixas no país, depois que chegaram a 5.400.

Na esteira do fiasco no CS, a França, com o apoio dos EUA, sugeriu a formação de um grupo de "amigos da Síria" - eufemismo para a oferta de ajuda militar indireta (via Catar, Turquia e Arábia Saudita, provavelmente) aos revoltosos. Se isso alterar a relação de forças no terreno, o efeito será a guerra civil plenamente instalada - com o Irã acudindo o seu aliado Assad. As portas do inferno, como os árabes costumam dizer, se abrirão no Oriente Médio.

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