Motim no Equador

Num país com um alentado histórico de instabilidade política como o Equador - onde o poder mudou de mãos oito vezes no decênio encerrado em 2007, com a posse do atual presidente, Rafael Correa - podia perfeitamente bem parecer que a rebelião policial que estalou na quinta-feira era a face ostensiva de uma tentativa de golpe de Estado. O próprio Correa acusou "aqueles que não conseguem chegar ao governo pelas urnas" de tramar a sua derrubada, citando nominalmente o ex-presidente Lucio Gutiérrez, exilado em Brasília.

, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2010 | 00h00

Mas a alegação peca pela base. Ainda que se admita que os opositores do bolivariano Correa pudessem ter interesse em tirar proveito do caos e da violência instalados no país - o que não se comprovou -, ficou claro que, por métodos inadmissíveis na vigência do Estado de Direito, a malta fardada quis derrubar não o chefe do governo, mas um decreto do Executivo ratificado pelo Congresso. O decreto, parte de uma reforma do funcionalismo público equatoriano, restringe ou elimina benefícios usufruídos pela Polícia Nacional de 20 mil membros e pelas Forças Armadas.

A cúpula da instituição militar manteve-se fiel ao governo, assim como o Judiciário e o Legislativo. Os revoltosos, por sua vez, poderiam ter prendido ou alvejado Correa quando, ao confrontá-los pessoalmente na manhã daquele dia de cão, ele os desafiou a fazê-lo. "Se vocês querem matar o presidente, aqui está ele", bradou. Foi insultado e sofreu os efeitos de uma bomba de efeito moral jogada em sua direção, mas ninguém atirou. Levado a um hospital militar em Quito, esteve sob o cerco dos amotinados, aos quais lançou novo repto. "Não vou retroceder", advertiu, falando por telefone a uma emissora de rádio. "Se querem, venham me buscar."

Afinal, depois de intenso tiroteio entre tropas do Exército enviadas para resgatá-lo e os amotinados, Correa foi levado de volta ao palácio presidencial. Altas horas, apareceu na sacada para reiterar, diante da multidão de simpatizantes, a versão de que foi vítima "da infâmia dos conspiradores de sempre", para os quais "não haverá perdão nem esquecimento". A principal vítima, na realidade, foi a população. Logo cedo, além de tomar vários quartéis, a meganha fechou estradas e ocupou os aeroportos da capital e de Guayaquil, a maior cidade equatoriana. Com o sumiço do policiamento, os malfeitores ficaram à vontade, com assaltos, saques e depredações em profusão. Houve mortes e dezenas de feridos.

Depois de decretar estado de exceção por cinco dias e colocar o Exército na rua para restabelecer a segurança pública - um general substituiu o chefe da polícia, que renunciou ontem -, o governo determinou que as emissoras privadas de rádio e TV suspendessem a sua programação por tempo indeterminado e pusessem no ar o sinal da rede pública. Mas não se confirmaram os rumores de que Correa decidira recorrer à "morte cruzada", como se chama o dispositivo constitucional que permite ao presidente, de uma penada, dissolver o Parlamento e convocar novas eleições gerais. Segundo uma fonte, ele teria deixado pronto e assinado o decreto já na noite da quarta-feira.

Os governos do Hemisfério se mobilizaram rapidamente em defesa de Correa. A secretária de Estado americana Hillary Clinton expressou o seu "completo apoio" ao presidente. A Organização dos Estados Americanos (OEA) manifestou "repúdio a qualquer tentativa de rompimento da ordem institucional no Equador", sem subscrever a teoria do golpe de Estado encampada de imediato pelo venezuelano Hugo Chávez e o boliviano Evo Morales. De seu lado, o chanceler brasileiro Celso Amorim esboçou um paralelo - de todo descabido - entre a sublevação corporativa equatoriana e os acontecimentos do ano passado em Honduras, com a deposição do presidente Manuel Zelaya.

Pior foi o presidente Lula. Ocupado fazendo comício para Dilma Rousseff, passou procuração a Chávez, num telefonema, para falar por ele em apoio a Correa na reunião da União das Nações Sul-Americanas marcada para ontem em Buenos Aires. Quem representa o Brasil é o secretário-geral do Itamaraty, Antonio Patriota. Também o ministro Amorim tinha mais o que fazer.

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