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MTST se impõe no grito

O Estado de S.Paulo

01 Junho 2014 | 02h 04

O Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) está prestes a obter, "no grito", mais uma vitória em sua escalada para fazer as autoridades se dobrarem à sua vontade em São Paulo. Desta vez o objetivo é transformar em fato consumado a invasão de uma área de 150 mil m² a 4 km do Estádio do Corinthians, em Itaquera, na zona leste, batizada Copa do Povo. Acovardados diante da ousadia e da arrogância do movimento, os governos municipal, estadual e federal já participam de entendimentos nesse sentido, alheios às graves consequências que tal atropelo escancarado da ordem legal fatalmente acarretará.

Autoridades dos três níveis de governo tratam com os invasores - que perpetram, impunes, crimes capitulados em lei - como se eles fossem pessoas de bem. Legitimam, assim, os crimes e os criminosos.

A bancada situacionista na Câmara Municipal confirma que o governo de Fernando Haddad pensa apresentar, como quer o MTST, uma emenda ao projeto de revisão do Plano Diretor, classificando aquela área como Zona Especial de Interesse Social (Zeis) para ali serem construídas moradias populares. Não por acaso, essa notícia foi dada após mais uma manifestação feita quarta-feira por cerca de 3,5 mil sem-teto, em frente à Câmara, para exigir essa medida.

Exigir é mesmo a palavra apropriada, como se conclui de declaração, como de hábito desabusada, do coordenador do MTST, Guilherme Boulos: "Nós queremos uma data para essa votação (do Plano Diretor) e também para a apresentação da emenda. Nada fora disso". Se não acontecer isso até o dia 12, ameaçam os líderes do movimento - também como já virou costume -, haverá "mais gente sem ingresso", ou seja, novos invasores para aquela área, às portas do estádio em que se realizará o jogo de abertura da Copa.

Insaciável - pois os governantes cedem facilmente a seus arreganhos -, o MTST e seu intrépido líder querem ainda mais, que aquela área seja considerada apta a ser incluída no programa Minha Casa, Minha Vida. Um pedido que ele fez pessoalmente à presidente Dilma Rousseff, em São Paulo. O que está por trás desse pedido apenas confirma o que já se sabe há muito, isto é, que o MTST está interessado mesmo é na ação política e não na solução do problema habitacional.

O MTST quer é usar aquele programa federal para, de acordo com uma prática já tentada em outras ocasiões, dar preferência a seus integrantes mais engajados na distribuição das moradias. Na prática, seria uma ação entre amigos políticos. Ganha não quem precisa mais, mas quem é militante fiel e vai reforçar as tropas de choque que organizam invasões e manifestações, cuja violência crescente é um fato.

Um outro dado importante que ajuda a compreender o que é e o que quer de fato o MTST, e se esconde por trás da imagem cuidadosamente elaborada de um movimento generoso, é a escolha a dedo tanto dos locais como dos momentos das invasões. Um exemplo é o desse terreno em Itaquera. É uma área particular, cujo proprietário certamente pedirá reintegração de posse, se não se tiver garantida numa indenização condizente com seu valor, e muito perto do Estádio, o que leva à chantagem do protesto às vésperas ou mesmo no dia - por que não? - do início da Copa.

Como tudo isso está à vista de qualquer observador atento, só o desejo de agradar aos movimentos ditos sociais, de olho nas eleições, pode explicar a atitude dos governantes diante da ousadia do MTST. Na própria quarta-feira em que promoveu mais uma arruaça em frente à Câmara, a liderança do MTST reuniu-se com autoridades federais, estaduais e municipais.

Está assim em curso - por parte dos três níveis de governo - a consagração do desprezo à lei e da truculência como forma de tratar o problema habitacional. O preço a pagar por isso, que é uma afronta às instituições e à ordem pública, será alto. Isso ficará claro quando pessoas como Boulos se acostumarem - como na verdade já ocorre - a tratar as autoridades de dedo em riste.

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