Mudança na Petrobrás

Quaisquer que sejam suas razões oficiais ou reais, o afastamento - anunciado como temporário, mas que pode ser definitivo - de Murilo Ferreira da presidência do Conselho de Administração da Petrobrás é claro reflexo da crise em que a empresa está mergulhada e a ela acrescenta mais um elemento perturbador. Ao indicar Murilo Ferreira - que é também presidente da mineradora Vale - para o cargo na Petrobrás, em abril, o governo pretendia mostrar ao mercado e aos investidores que passaria a exigir critérios técnicos e mais transparentes na gestão da estatal, cujas finanças foram seriamente abaladas pelo ambicioso programa de investimentos que o Palácio do Planalto lhe impôs, pelo rigoroso controle dos preços dos derivados de petróleo e pelo escandaloso processo de desvio de dinheiro para políticos e partidos desvendado pela Operação Lava Jato. A saída de Ferreira - oficialmente até 30 de novembro - pode ser um sinal de que não houve grandes mudanças na gestão da maior estatal brasileira.

O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2015 | 03h00

Nova visão estratégica, maior dinamismo operacional, programas eficazes de corte de custos e de venda de ativos para reduzir o nível de endividamento, administração mais racional e transparente na área de pessoal estavam entre as mudanças que, com a chegada de Murilo Ferreira e de outros nomes conhecidos no mercado ao Conselho de Administração e a substituição da diretoria executiva - que passou a ser presidida por Aldemir Bendine -, deveriam marcar a nova administração da Petrobrás. São, de fato, medidas indispensáveis para a empresa alcançar o equilíbrio de suas finanças, melhorar seus resultados operacionais e econômico-financeiros e restabelecer as condições para seu crescimento.

Pouca coisa, no entanto, parece ter avançado nessa direção. O primeiro programa efetivo de venda de ativos parou, ao que se noticia, por causa de divergências entre Ferreira e Bendine. Trata-se do projeto de oferta pública de ações (IPO, na sigla em inglês) da BR Distribuidora, para fortalecer a estrutura de capital da estatal e reduzir sua dívida. Bendine queria acelerar o processo, concluindo-o ainda neste ano. Ferreira se opôs publicamente a isso em agosto, registrando em ata do Conselho de Administração que, antes de vender suas ações, a Petrobrás precisaria rever seu plano de negócios e reestruturar a distribuidora, para dela afastar as manchas deixadas pelas operações irregulares detectadas pela Operação Lava Jato. O processo de abertura de capital parou.

Também a administração interna da estatal pode ter gerado divergências entre o Conselho de Administração, presidido por Ferreira, e a diretoria executiva, presidida por Bendine. Entre outras decisões, a diretoria executiva promoveu em agosto mais de 39 mil empregados pelo critério de desempenho, isto é, não em decorrência de acordos com os empregados nem de imposição contratual ou judicial, mas por sua decisão exclusiva. Num período em que a estatal diz estar executando um programa severo de redução de despesas administrativas, tal generosidade na gestão de pessoal parece um contrassenso.

Pior ainda, a liberalidade evidente nesse caso pode servir de argumento para a Federação Nacional dos Petroleiros, que está iniciando as discussões com a diretoria da Petrobrás sobre o reajuste salarial da categoria e sobre a renovação dos benefícios econômicos e sociais acertados em negociações anteriores. A grave crise econômica do País e a crise em que a Petrobrás se debate por conta do escândalo do petrolão e das decisões estratégias equivocadas que sua diretoria teve de tomar por imposição do governo do PT não comovem os petroleiros. Embora gozem de benefícios com que empregados de empresas privadas nem podem sonhar, eles querem mais, pois se acostumaram à generosidade com que a estatal sempre os tratou.

É uma oportunidade para a direção da empresa agir com firmeza e mostrar que está disposta a recolocá-la nos trilhos. A repentina saída de Murilo Ferreira, porém, deixa dúvidas quanto à real disposição da estatal de agir desse modo.

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