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Muito aperto, menos serviços

Sobraram marcas da crise em todos os tipos de serviços, como lavanderias, salões de cabeleireiros, empresas de tecnologia e companhias de transporte rodoviário, num cenário de muito desemprego e muito aperto para as famílias. Em dezembro, o volume de serviços prestados em todo o País foi 5% menor que o de um ano antes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No ano, a queda acumulada ficou em 3,6%. A receita nominal, isto é, sem desconto da inflação, foi em dezembro 0,3% maior que no mês correspondente de 2014. Em 12 meses, o aumento foi de 1,3%. Descontada a inflação, por qualquer indicador disponível, o resultado é uma queda considerável do faturamento real dos prestadores de serviços. Tudo isso combina muito bem com o desastre do varejo, com volume de vendas 4,3% menor que no ano anterior, sem contar a contração de 17,8% do comércio de veículos e componentes.

18 Fevereiro 2016 | 02h54

O péssimo desempenho dos serviços, assim como o do comércio varejista, confirma dramaticamente as dificuldades e a insegurança das famílias, num ano de funda recessão combinada com uma forte aceleração da alta de preços. Quem ainda dispôs de algum dinheiro além do necessário para o essencial, como comida e remédios, tratou de usá-lo com muita parcimônia e de se prevenir para uma possível – e nada improvável – piora da situação. Os dados iniciais de 2016 e as previsões de mais um ano muito ruim, formuladas por especialistas de todos os setores, parecem dar razão a quem decidiu ser prudente e moderado nos gastos.

Em dezembro, o volume dos serviços às famílias – com itens como recreação, lavanderia, tinturaria, alojamento, cursos e cuidados de higiene e beleza – foi 7% menor que o de um ano antes, com queda acumulada de 5,3% em 12 meses. Serviços de informação e comunicação tiveram variação nula durante o ano e seus números de dezembro foram 0,4% inferiores aos do mesmo mês de 2014.

Todos os grandes grupos de serviço acumularam resultados negativos ao longo de 2015, com exceção de uns poucos segmentos, como tecnologia da informação e transporte aéreo (com aumentos de 4,5% e de 4,3% em 12 meses no volume de atividade). O desempenho de alguns evidenciou com especial clareza tanto os problemas do dia a dia das famílias quanto a deterioração geral das condições econômicas.

Os números do transporte terrestre, da armazenagem e dos serviços auxiliares dos transportes e também do correio ilustram bem o mau desempenho da maior parte da indústria, do comércio e dos demais segmentos dos serviços. Num ano de forte contração da maior parte das atividades, o desempenho do agronegócio foi, mais uma vez, a exceção positiva, com aumento da produção e das exportações.

Mesmo com os números ainda positivos do agronegócio, o volume de serviços de transporte terrestre foi no ano passado 10,4% menor que em 2014. Os serviços auxiliares de transportes, armazenagem e correio diminuíram 4% no mesmo período. Em dezembro, a atividade do transporte terrestre foi 11,5% inferior à do fim do ano anterior. A comparação dos dados de outubro e de novembro com os números dos meses correspondentes de 2014 já havia sido fortemente negativa, apontando reduções de 12,5% e de 14,3%.

Os números muito ruins do trimestre final são em parte explicáveis pelo fraco desempenho do comércio nas festas de fim de ano. A expectativa desse mau desempenho, confirmada em dezembro, já havia influenciado as encomendas e a movimentação de cargas.

Famílias com orçamento apertado e assombradas pelo risco do desemprego passeiam menos e vão menos a restaurantes e a recreações. Nada espantoso, portanto, o encolhimento anual de 2,1% das atividades turísticas. Neste, como em outros casos, a cautela do consumidor pode ter custado muitos empregos. Mas como evitar a cautela, quando ninguém sabe se o dia seguinte será pior e o governo é incapaz de apontar um rumo?

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