Mundo, vasto mundo

Falta delicadeza à cópula dos tubarões. Os machos mordem as fêmeas, cuja pele chega a sangrar. Violações coletivas sobejam e os filhotes de uma única ninhada têm vários pais. A espécie Carcharias taurus pratica o canibalismo: no útero, os embriões comem-se uns aos outros, na mais feroz competição entre consanguíneos de que temos notícia. Como a fêmea do tubarão tem dois úteros, a mãe Carcharias taurus pode dar à luz dois filhotes matadores. Cada um deles, tendo engolido todos os rivais com quem compartilhou o primeiro abrigo, já nasce sabido e experiente.

Eliana Cardoso *,

27 Março 2013 | 02h11

Se você acha que o mercado financeiro é um mar de tubarões e acredita que o governo salva os peixes menores e suas poupanças, com certeza caiu do cavalo quando soube que o resgate de Chipre deveria incluir um imposto sobre os depósitos bancários mesmo abaixo dos garantidos € 100 mil. Como era de esperar, os cipriotas correram para caixas eletrônicos na tentativa desesperada de retirar seus recursos dos bancos. A medida (embora rejeitada pelo Parlamento e substituída por outra que atinge principalmente russos acusados de lavagem de dinheiro) fez seu estrago. Pois a confiança, difícil de ganhar, é fácil de perder. De agora em diante, impostos sobre depósitos se tornarão um elemento em resgates futuros.

Por enquanto o choque não foi suficiente para gerar revisões das expectativas para o crescimento em 2013. Portanto, prevalece a projeção de crescimento global em cerca de 3%, com recuperação fraca nas economias avançadas. O doloroso corte de gastos para reduzir a dívida dos países europeus continua valendo, lado a lado com o rali de ativos de risco nos EUA, em resposta à política monetária não convencional do Fed e dos bancos centrais da Inglaterra, da Europa, da Suíça e do Japão, todos eles engajados nalgum tipo de afrouxamento quantitativo. Os perigos de 2013 ainda lembram os de 2012, nesse oceano moderno povoado de tubarões e leviatãs.

Na arena política, a primavera árabe vai-se transformando em sombrio inverno. E embora pareça improvável um conflito militar entre o Irã, de um lado, e, do outro, Israel e EUA, ouve-se o ribombar dos tambores de guerra. Israel recusa-se a aceitar um Irã com armas nucleares e os líderes iranianos não estão dispostos a abandonar os esforços para desenvolvê-las.

Na arena econômica, nos EUA, mais cedo ou mais tarde, republicanos e democratas se envolverão em outra briga sobre o teto da dívida e assustarão os investidores com mais um suspense fiscal. Na China, as rodadas de estímulos monetário e creditício em 2012 mantiveram o modelo de crescimento desequilibrado com base na poupança excessiva, enquanto a liderança conservadora e gradualista contribui para o risco de aterrissagem forçada. Na Europa - onde parecia que as ações do Banco Central Europeu tinham reduzido os riscos de abandono do euro pela Grécia e garantido à Itália e à Espanha o acesso ao mercado de crédito - os problemas continuam sem solução: grandes estoques de dívida privada e pública, envelhecimento da população, baixo crescimento da produtividade... E, agora, o resgate às avessas de Chipre.

Nesse cenário tão conturbado, a vida na América Latina parece bem mais tranquila, apesar das crises na Venezuela e na Argentina, onde a rápida desvalorização da taxa de câmbio no mercado paralelo (fruto do aumento da inflação e dos controles cambiais) comprova políticas econômicas insustentáveis. Mas enquanto a Argentina sofre com a incerteza associada ao processo judicial de sua dívida nos EUA, com o desequilíbrio externo e o medo da maxidesvalorização, o México está a caminho de se tornar o queridinho do mercado financeiro.

Entre 15 e 17 de março, no Panamá, os participantes do encontro anual do Banco Interamericano festejavam a onda de reformas que se inicia no México e cantavam as glórias do Chile, do Peru e da Colômbia. Augusto de La Torre, economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina, mostrava preocupação com a volatilidade dos capitais internacionais. O que fazer? Controles? O diretor para a região do Hemisfério Ocidental no FMI, Alejandro Werner, disse que não gosta dessa medida. O ministro das Finanças da Colômbia, Maurício Cárdenas, confessou igual desagrado, mas revelou que, por via das dúvidas, mantém sobre a mesa de trabalho uma pasta com detalhes de controles de capitais. Vai que...

No momento - dizem os entendidos - Brasil e México oferecem dois modelos rivais. A visão predominante sobre o México é de que o país, detentor do maior número de acordos de livre-comércio assinados na região e comprometido com a abertura ao comércio (60% do PIB mexicano), contrasta fortemente com o Brasil, que vem abraçando o protecionismo. O Brasil, que ganhou enorme estatura durante as últimas décadas, enfrenta hoje investidores cada vez mais cautelosos. Eles acham justa a decisão da agência de classificação de risco Moody's de rebaixar a nota de crédito da Caixa Econômica e do BNDES.

Mesmo para quem questiona o mérito dessas comparações, o México tem uma boa história para narrar. Conta com o dividendo demográfico, pois a idade média de sua população é de 26 anos. Cresceu 3,9% em 2012 com respeitável situação fiscal. A dívida bruta do setor público, de 34% do PIB, é a metade da dívida bruta do Brasil. Aqui e lá, as projeções de crescimento para 2013 não são muito diferentes. O elemento que favorece o futuro do México e o otimismo dos investidores reside na onda de reformas estruturais lançadas pelo presidente Enrique Peña Nieto. O que importa não é o crescimento de curto prazo, mas a perspectiva de reformas. Cá e lá, o progresso econômico no longo prazo depende de reformas em áreas-chave, tais como a tributária, a segurança, a educação, pensões e energia. Parece que elas se fazem necessárias em todo o mundo. Se eu me chamasse Raimundo...

* Eliana Cardoso é PH.D. pelo MIT e professora titular da FGV-São Paulo: www.elianacardoso.com.

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