Na Grécia, aperto contra calote

No último instante a Grécia parece ter escapado mais uma vez de um calote desastroso para toda a Europa e com grande potencial para causar estragos em todo o mundo. O primeiro-ministro Lucas Papademos anunciou ontem um acordo com os partidos aliados para a adoção das severas medidas de ajuste exigidas pela troica - Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e FMI - para a concessão de um novo auxílio financeiro de 130 bilhões. O aperto de cinto é condição também para a renegociação da dívida com os bancos, emperrada até agora pelo desacordo político na Grécia em torno das novas medidas.

O Estado de S.Paulo

10 Fevereiro 2012 | 03h11

A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, classificou como "muito encorajadoras" as notícias provenientes de Atenas, mas ainda haveria, acrescentou, muito trabalho pela frente. Com a liberação da nova ajuda, o Tesouro grego poderá liquidar compromissos no valor de 14,5 bilhões com vencimento em março. Todos têm enorme interesse em salvar a Grécia da insolvência, mas a troica ainda cobrará ações concretas e o detalhamento do acordo recém-anunciado - um aperto adicional de cerca de 300 milhões em 2012.

A insolvência grega poderia abrir a porteira para outros calotes, advertiu em Davos, no fim do mês passado, o vice-primeiro-ministro da Turquia para Assuntos Econômicos, Ali Babacan. Ele apenas indicou sem meias palavras o perigo reconhecido há muito tempo, tanto no mundo oficial como nos mercados. Uma solução do problema grego poderá ajudar a Irlanda a voltar aos mercados de bônus, disse ontem o ministro irlandês das Finanças, Michael Noonan, depois de manifestar dúvida quanto ao alcance do acordo político na Grécia.

Qualquer autoridade poderia ter descrito a situação em termos bem mais dramáticos: a prolongada incerteza quanto à dívida grega é um risco para outros países endividados, como ficou claro, nos últimos dias, com as pressões crescentes sobre Portugal. Um calote originado numa das menores economias da zona do euro poderá afetar várias outras, com impactos até em algumas das principais potências da zona do euro, como Espanha e Itália, já envolvidas em ambiciosos programas de estabilização.

O acordo grego envolve medidas muito impopulares, como cortes nas aposentadorias e no salário mínimo e demissões no serviço público. Quando todos os detalhes estiverem definidos, haverá condições para o acordo com os credores privados para a redução da dívida. Um corte de 50% no valor de face foi praticamente acertado em outubro, mas as negociações se arrastaram, por causa dos desacordos políticos.

Com um esperado corte dos juros sobre o saldo devedor, o perdão da dívida poderá ficar entre 60% e 70%. Os bancos deverão renunciar a créditos provavelmente superiores a 100 bilhões. O objetivo é reduzir a dívida grega de 160% do PIB para 120% em 2020. Inicialmente, poderá haver um aumento para 160%, por causa da contração da economia, estimada entre 4% e 5% neste ano.

A resistência política a novos cortes continuou nos últimos dias, com manifestações de rua e repressão policial. O desemprego chegou a 20,9% da força de trabalho em novembro. A situação é pior entre os jovens, com 48% de desocupação na faixa de 15 a 24 anos de idade.

Ontem à tarde, o anúncio do acordo grego foi um dos assuntos principais da reunião do Eurogrupo, formado pelos ministros de Finanças da união monetária. A diretora-gerente do FMI e o presidente do BCE, Mario Draghi, participaram do encontro. De manhã, o BCE havia decidido manter os juros básicos em 1% e ampliar a ajuda ao setor financeiro. O Banco da Inglaterra decidiu aplicar mais 50 bilhões de libras na compra de papéis públicos em circulação no mercado, para reforçar a liquidez dos bancos. A meta das operações foi assim elevada para 325 bilhões de libras. Outra notícia positiva chegou dos Estados Unidos. O governo fechou acordo com cinco grandes instituições financeiras para conter as execuções de hipotecas e anunciou uma redução na procura de seguro-desemprego. Foi um dia de novidades animadoras.

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