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No Brasil faltam elites dirigentes

Passando os olhos pela História republicana do Brasil, constata-se que sempre houve grupo(s) dirigente(s) pronto(s) a substituir os que falharam na condução do Estado em momentos críticos. Refiro-me a falhas na capacidade de perceber a debilitação de modelos políticos e/ou econômicos antes que fosse tarde demais. A disponibilidade de elites dirigentes alternativas que, em aliança com grupos dissidentes do “antigo regime”, imprimiram novos rumos ao País evitou impasses políticos prolongados. Nem sempre com resultados desejáveis, como no golpe militar que pôs fim à democracia do período 1945-1964.

SERGIO FAUSTO*

31 Janeiro 2016 | 02h55

Esse padrão histórico contrasta com a situação atual. De positivo destaca-se a inexistência de ameaça ao regime democrático. De negativo, a dificuldade de articulação de uma nova coalizão de forças capaz de fazer o que o atual governo não tem mais condições de realizar: mudar os rumos do País. 

A culpa pela ausência de uma alternativa clara ao status quo em geral é atribuída aos partidos de oposição, particularmente ao PSDB. Em boa medida a crítica é merecida, com uma ressalva importante: ela confunde a parte com o todo e o conjuntural com o estrutural. 

Tornou-se comum dizer que faltam lideranças políticas no Brasil. É verdade. A geração composta por remanescentes do período pré-1964 (Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, etc.) e por políticos que se formaram na oposição ao regime autoritário (incluídos os que, uma vez no poder, jogaram na lata do lixo sua responsabilidade histórica, confundindo o País com o partido) não foi substituída por outra à altura. Sem idealizá-la, em comparação com a atual aquela geração tinha maior noção da responsabilidade pública inerente à sua condição de dirigentes políticos.

Menos notada é a escassez de lideranças reconhecíveis e consolidadas na sociedade. No mundo empresarial, não se fazem mais Antônios Ermírios de Moraes e Josés Mindlins. Assim como na esfera sindical já não surgem mais Luizes Inácios da Silva. Não apenas porque os mecanismos de cooptação do Estado, aguçados no período recente, e a tendência à eternização dos dirigentes sindicais de patrões e empregados nas entidades de representação de classe limitam a emergência de novas lideranças, mas porque a sociedade brasileira já não é a mesma. A “velha indústria” perdeu peso relativo, um amplo e ainda mais heterogêneo setor de serviços se expandiu, empresas familiares se profissionalizaram, dando maior proeminência a muitos CEOs do que a alguns donos-fundadores. Também não se fazem mais dons Paulos Evaristos Arns e Ivos Lorscheiters porque o universo das igrejas no Brasil se diversificou muito, com a perda de densidade da católica e a multiplicação de denominações evangélicas. A crise da mídia tradicional produz efeitos semelhantes, assim como a emergência de um ativismo político explicitamente antipartidário e contraestatal, em parcial substituição à “sociedade civil organizada” que conhecemos no passado. 

Há nesse quadro elementos positivos e negativos. De um lado, reflete a democratização do País, que se tornou mais diversificado e plural. De outro, a fragmentação da sociedade, que tem mais dificuldade para se reconhecer no espelho e produzir lideranças identificáveis e abrangentes. 

Acresce que a sociedade se afastou da política, com exceção de setores empresariais mais organizados (quando não cartelizados), que com frequência se mantiveram ligados a governos e partidos pelos piores canais, e de alguns movimentos sociais que se partidarizaram e se deixaram cooptar pelo Estado. A participação na política e no setor público tornou-se cada vez menos atraente para os quadros da elite econômica, intelectual e científica, em comparação com as oportunidades oferecidas no setor privado e no terceiro setor, que passou a absorver a maior parte da vocação pública dos mais jovens. O global tornou-se mais atraente que o nacional e o privado; e o não governamental, mais atraente que o político-estatal.

O fenômeno não é exclusivo do Brasil. Há uma perda de qualidade das elites dirigentes dispostas a disputar e assumir a condução política do Estado mesmo nos países mais desenvolvidos. Entre nós, porém, o problema é agravado pela elevação dos riscos reputacionais e jurídicos associados à participação na política eleitoral e no desempenho de funções de direção no Estado.

Campanhas cada vez mais caras e financiadas de forma heterodoxa, criando relações de dependência com governos e/ou financiadores privados, a desorganização do sistema partidário, a prevalência de formas arbitrárias e/ou oligárquicas de seleção de novos quadros políticos dentro dos partidos, tudo isso desestimula a participação na política “por vocação”. Mecanismo análogo de seleção adversa opera em relação às funções públicas de direção. De um lado, formas de controle excessivamente formais punem o gestor disposto a inovar, sem necessariamente coibir aquele interessado em desviar recursos públicos. De outro, o loteamento político do Estado aumenta o risco jurídico de o gestor bem-intencionado se ver envolvido em esquemas ilícitos orquestrados e executados à sua revelia. 

Refletindo e reforçando esses problemas, prevalece na sociedade a ideia de que a política é essencialmente “suja” e os governos, necessariamente “corruptos”, num círculo vicioso que afasta da vida pública a maior parte dos indivíduos que mais poderiam contribuir para melhorar a qualidade da política e do Estado. Como contraexemplo disso, logo vem à mente a nova geração de promotores, tecnicamente muito bem preparada e movida pelo interesse público. Mas é sintomático que desempenhem uma função judicial, e não política.

É essencial romper esse círculo vicioso. Sem elites dirigentes, com uma certa visão do Brasil, do seu passado e do seu futuro, corremos o risco de perder o rumo da História.

*SERGIO FAUSTO É SUPERINTENDENTE EXECUTIVO DO iFHC, COLABORADOR DO LATIN AMERICAN PROGRAM DO BAKER INSTITUTE OF PUBLIC POLICY DA RICE UNIVERSITY, É MEMBRO DO GACINT-USP. E-MAIL:  SFAUSTO40@HOTMAIL.COM

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