No centenário de Octavio Paz

Este ano é o do centenário do nascimento de Octavio Paz, Prêmio Nobel de Literatura de 1990 e um dos maiores poetas e pensadores da América Latina. O seu falecimento, em 1998, representou, nas palavras de Gabriel García Márquez, "a irreparável interrupção de uma torrente de beleza, reflexão e análise que saturou de extremo a extremo o século 20 e cuja onda expansiva há de sobreviver-nos por muito tempo".

CELSO LAFER,

16 Março 2014 | 02h05

Para celebrar o seu centenário e refletir sobre a vigência da onda expansiva do percurso de sua obra no século 21 será realizada, no México, na última semana de março, uma série de eventos e encontros. Fui convidado para deles participar, tanto para dar um testemunho sobre a sua pessoa quanto para analisar o alcance, para a América Latina de hoje, da sua reflexão sobre a democracia. O testemunho será em conjunto com outras pessoas que o conheceram e admiraram e, nesse contexto, a minha ideia, que antecipo neste artigo, é indicar a pertinência de uma voz brasileira.

Conheci Octavio Paz na Universidade Cornell, nos EUA, em 1966. Tive o privilégio de ser seu aluno num deslumbrante curso sobre a poesia da modernidade que, muito mais do que os seus indiscutíveis méritos acadêmicos, foi a defesa da poesia e da presença poética por um grande poeta para quem criação e reflexão eram vasos comunicantes. Ithaca, onde se situa Cornell, está distante da ebulição dos grandes centros. Isso facilitou uma convivência mais próxima, fora da sala de aula, com Octavio e permitiu grandes conversas sobre os temas do curso e sobre tudo mais. Foi nesse contexto de amizade que ele autografou o meu exemplar de El Arco y la Lira, dizendo que eu lhe tinha dado "antecipada saudade del Brasil".

A palavra saudade é uma singularidade da língua portuguesa, sem equivalentes apropriados em outras, incluída a espanhola, como muito bem sabia Octavio, tradutor e intérprete de Fernando Pessoa. É uma palavra de muitos significados que tem duas constantes, o desejo e a lembrança, que ecoam, por exemplo, na Canção do Exílio de Gonçalves Dias.

Terá sido Alfonso Reyes, admirável embaixador do México em nosso país na década de 1930 e grande conhecedor da nossa literatura e nossa realidade, quem inseriu esse sentimento nas antenas de sensibilidade de Octavio. Reyes, como me observou Octavio, foi feliz no Brasil e por isso sabia o que eram saudades. O Brasil, num contexto mais amplo, se inseria no mapa dos interesses de Octavio porque considerava a literatura brasileira, do mesmo modo que a hispano-americana e a norte-americana, uma literatura de fundação, empenhada em engendrar uma tradição própria, distinta das suas matrizes europeias, por obra do contato e confronto com o mundo das realidades das Américas.

Octavio sabia que a literatura brasileira, por ser escrita em português, diz respeito a um universo linguístico irredutível ao espanhol. Daí a sua fisionomia própria, porém próxima, pois para Octavio existem "relações muito especiais" entre a literatura de língua espanhola e as literaturas fronteiriças, como a brasileira. Essas relações muito especiais explicam o seu interesse, que fui alimentando no correr dos anos, pela nossa literatura, particularmente por seus poetas, entre eles Bandeira, Drummond, João Cabral, Murilo Mendes. Foi, no entanto, com os concretistas que ele efetivamente mais interagiu, em função da convergência com a visão destes sobre o desafio da criação poética no mundo contemporâneo e o papel da tradução da poesia.

Identifiquei essa convergência no curso e pela leitura do seu ensaio de 1965 Los Signos en Rotación. Por isso, ao retornar ao Brasil, movido pelo empenho de tornar a sua obra conhecida no País, busquei a parceria do meu caro amigo Haroldo de Campos para essa empreitada e instiguei a sua aproximação com Octavio, o que foi fácil dada a existência de muitas afinidades eletivas. Organizamos, assim, Haroldo e eu, a primeira antologia no Brasil de ensaios de Octavio, intitulada Signos em Rotação, que foi publicada pela Editora Perspectiva em 1972.

A antologia procurou dar conta da latitude da sua reflexão e se beneficiou da qualificada tradução de Sebastião Uchoa Leite, que também elaborou um belo ensaio sobre Octavio. Eu escrevi sobre o seu pensamento político e o ponto alto foi de autoria de Haroldo: Constelação para Octavio Paz, uma antologia transcriada para o português do movimento da sua poesia até 1958, precedida de um estudo crítico que também relata o início da correspondência que trocaram e o começo da amizade que os uniu. Uma das belas facetas dessa amizade foi a tradução/transcriação para o português de Blanco, um dos grandes e mais ambiciosos poemas de Octavio, no qual logrou desvendar a figura do mundo contemporâneo na dispersão dos seus fragmentos.

A nossa antologia foi o ponto de partida do que veio a ser a crescente presença no Brasil de obras de Octavio em português e de suas intervenções na agenda da discussão pública brasileira, muitas delas nas páginas de O Estado de S. Paulo, todas caracterizadas por um agudo espírito crítico, assinalado pela valentia de espírito e pela intrepidez do olhar. Assim, quando Octavio, acompanhado de sua mulher, Marie Jô, veio em 1985 matar saudades, ao Brasil, o Brasil já tinha antecipada saudade de sua pessoa e de sua obra.

A estadia de Octavio no Brasil foi plena de atividades, mas quero concluir evocando um momento especial do qual guardaram e guardamos saudades. Octavio valorizou a leitura pública da poesia, na qual a palavra viva coincide com a palavra vivida por meio da participação, no poema, dos ouvintes. O alcance desse laço entre o poeta e o grupo que o escuta é o que pude testemunhar, acompanhando Octavio e Haroldo, quando transformaram o anfiteatro da USP na casa da presença da poesia, lendo sucessivamente, dividida em partes, Blanco, no original e na sua transcriação para o português.

CELSO LAFER, PROFESSOR EMÉRITO DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA USP, É MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

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