No descompasso de uma ambição

Dória não é carta fora do baralho, mas nunca esteve tão perto de ser signo fora do sufrágio

*Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2017 | 03h04

“Ô,ô,o-ô, o-ô, o trem tá atrasado ou já passou”

Sérgio Porto, em ‘Samba do Crioulo Doido’

Dizem que João Doria se comunica muito bem. Será mesmo? Talvez sim, desde que o verbo esteja no passado: ele se comunicava bem. Como candidato a prefeito, em 2016, sua imagem de outsider e seu marketing de almofadinha-celebrity, desfilando em trajes típicos nas redes sociais, funcionaram de acordo com a encomenda. Agora, porém, como alcaide empossado e em exercício, os mesmos truques se vêm mostrando o caminho mais curto para o fiasco.

Antes de avaliar as razões do desfazimento de uma marca que deu certo na campanha para dar errado no mandato, comecemos pelos fatos. Domingo passado, dia 8 de outubro, o Estado dedicou um de seus três editoriais diários (página A3) a registrar precisamente isso, os fatos. O título da nota era franco: Cidade Linda só no nome. O texto adotou o mesmo tom: “As primeiras avaliações sobre o desempenho do governo João Doria na área dos serviços de zeladoria – tais como manutenção de ruas e calçadas e limpeza pública – são desanimadoras”. A partir de dados bem apurados por uma reportagem do próprio jornal, a nota atestou que “os números são eloquentes e não deixam dúvida sobre o mau começo do governo Doria”. No parágrafo final, um diagnóstico nada entusiasmado: “O prefeito deve uma explicação aos paulistanos. Mas ela certamente não é fácil para ele, porque deveria começar pela sua pouca presença à frente da administração da cidade. Doria hoje, como é notório, cuida muito mais de política – logo ele, que se elegeu apresentando-se como ‘gestor’ – do que de administração, de olho numa possível candidatura à Presidência em 2018. Se conseguir, o que fará com sua fama de mau prefeito?”.

Sigamos com os fatos. No mesmo domingo, dia 8, o jornal Folha de S.Paulo trouxe uma pesquisa do Instituto Datafolha que corrobora o diagnóstico e a falta de entusiasmo. A aprovação do tucano caiu de 41% para 32% em quatro meses – e, mais crítico ainda, 55% dos paulistanos não votariam nele para presidente.

Não são bons os ventos para um político que se diz não político e, mesmo dentro da sigla que aceitou abrigá-lo, já se indispôs com meio mundo. Numa frente, deixou-se intrigar com seu padrinho, Geraldo Alckmin, porque, de tanto ficar “de olho numa possível candidatura à Presidência em 2018”, parece querer tomar-lhe o lugar. Na outra frente, declarou guerra à velha-guarda partidária, a ponto de xingar Alberto Goldman de “fracassado” e ainda arrematar: “Você vive em casa, de pijamas”. (Alguém aí falou de elegância e boas maneiras?)

Por essas e outras, o futuro doriano não é mais o que costumava ser. Como numa cena desses filmes de ficção científica romântica em que as pessoas viajam no tempo, as nove letras do nome de João Doria vão se esvanecendo e se apagando da cédula das eleições presidenciais marcadas (ao menos em princípio) para outubro do ano que vem. A ventania das improbabilidades cabalísticas varre primeiro o pingo do “i”, depois o til do “a” e o “J” maiúsculo. Nessa cena do nosso cinema imaginário, as três letras que mais resistem são o “D”, o “o” e o “r”. Uma “dor” irônica teima em não se desgrudar do papel. Então, num sopro mais áspero, também a palavra “dor” se desmancha no ar.

João Doria Junior não é uma carta fora do baralho (os golpes de ar não são tão fortes assim), mas nunca esteve tão perto de ser um signo fora do sufrágio. Algo mudou em São Paulo – e no Brasil.

A “fama de mau prefeito” é a questão. Aliás, a questão é a “fama”. Em 2016, Doria era a fama em pessoa: era o personagem rico, engomado e dotado de algum carisma que descia do olimpo televisivo para dar beijinhos nos desvalidos e desesperançados. O apelo revelou-se irresistível. Suas aparições cibernéticas em frenesi adolescente faziam a delícia de eleitores sem direitos e sem afetos. Agora, em 2017, os sinais se invertem. A “fama de mau prefeito” persegue-o feito assombração. Ele não pode mais se apresentar como um outsider, como um não político, pois não passa de um prefeito em apuros.

Um presságio começa a zunir em sua cabeça. Ele cobiçou para si o lugar de Alckmin e agora corre o risco de perder o lugar para uma celebridade zero-quilômetro. Seus posts engraçadinhos perdem a graça e seus histrionismos anti-Lula soam apenas bobos. Doria ficou menos moderninho que Luciano Huck e menos troglodita que Bolsonaro. Oh, pesadelo. Ele olha para a curva da estrada em que o cavalo que lhe viria encilhado e o cavalo... nada. O presságio em sua cabeça zune mais alto. Será que ele chegou atrasado ao cavalo ou o cavalo é que se atrasou com ele?

Sérgio Porto, o célebre (nunca celebridade) Stanislaw Ponte Preta, rabiscou a letra do Samba do Crioulo Doido em 1966, em homenagem a uma gente que não se concilia com a própria história e a um projeto nacional que não se acerta com a linha do tempo. Era outra época, mas o País era o mesmo. Distas terras aqui, Claude Lévi-Strauss anotou que se tratava, como alguém já dizia, de um lugar que saía da barbárie e alcançava a decadência sem conhecer a civilização. Ainda nos termos do nosso velho professor francês, a ambição de Doria talvez cumpra um destino equivalente, indo “do viço à decrepitude sem parar na idade avançada”. Essa marca fatídica – da selva à podridão, sem escala na polis – faz parte do DNA da cidade de São Paulo, em que ruínas envidraçadas e desumanas pipocam umas sobre as outras, enquanto a fisionomia urbana não tem tempo de se reconhecer no espelho.

Tenso, ansioso, o prefeito sorri, sanfonando as bochechas escanhoadas em dobrinhas perfiladas. Não vai desistir. Seu cavalo “tá” atrasado? Ou já passou? Por enquanto, ninguém é capaz de responder. Pelo sim, pelo não, coloquemos o verbo no futuro: Doria se comunicará bem? A ver. O samba continua.

*Jornalista, é professor da ECA-USP

 

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