No submarino estamos todos

Os inimigos hoje são o crime, a droga, o narcotráfico, que não têm pátria

*Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2017 | 03h02

A tragédia do submarino argentino vai muito além do horror da morte coletiva por sufocação. O que me atordoa não é só aquele lento despedir-se da vida por faltar o ar, literalmente, na brutalidade perversa de um sarcófago de aço no fundo do mar. Cada um dos 44 tripulantes deve ter aguardado o instante final na angústia de ver morrer o saudável companheiro ao lado sem poder socorrê-lo, consciente de que a próxima vítima seria ele, em segundos ou minutos.

O dramático perpassa, porém, esse horror. Tudo tem uma origem e a tragédia (que o mundo inteiro acompanhou perplexo e comovido) nos obriga a certas indagações e observações que vão além da antevisão de morte anunciada.

Indago: nas Américas do século 21, em tempos de paz e mercado comum, em que um país consome o que o outro produz e o diálogo marca o entendimento ou a cooperação e até os bancos são os mesmos em ambos lados das fronteiras, será necessário manter sofisticadas armas de guerra, com os perigos que delas derivam?

A pergunta parecerá ingênua, mas nunca descabida. Já não há disputas territoriais. A visão geopolítica abandonou os quartéis de fronteira e passou ao diálogo diplomático. Somos “hermanos” no comércio, na ciência e até nos acordos militares e na patrulha de fronteiras. Só o futebol nos separa, mas o furor nas relações se resume a isso.

Se essa é a realidade, para que submarinos, essas onerosíssimas armas de ataque, que pouco servem à paz?

Submarino esconde-se e ataca, guerreia pelo terror traiçoeiro. É arma para surpreender o inimigo. Na 2.ª Guerra Mundial submarinos alemães e italianos afundaram 33 navios mercantes ou de passageiros do Brasil, matando mil pessoas antes de declararmos guerra a Hitler e Mussolini.

Semanas atrás, no extremo sul do Continente, o submarino argentino havia brincado de guerra e (juntamente com a frota desse país) concluído um exercício naval “contra o inimigo”. Mas que inimigo? Paraguai e Bolívia, vizinhos sem mar? Ou Brasil, Uruguai e Chile, unidos à Argentina por tratados de cooperação que incluem o vasto mar? Ou Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, sem fronteiras com a Argentina?

Estamos no século 21, longe das estúpidas lutas territoriais dos séculos 18 e 19. Hoje a violência é interna e extensiva, não externa.

Os inimigos já não são as fronteiras. Ao vigiá-las, não buscamos os vizinhos estrangeiros, mas o crime, o contrabando, a droga e o narcotráfico, que não têm pátria e são o mar multinacional da violência, acima da razão e da ética.

A pujança dos nossos países não está no poder do armamento, nas bombas, nos mísseis, nos aviões, submarinos, navios ou tanques. A não ser que pensemos como o extravagante Kim da Coreia do Norte, que age como um “Kim-Kong” tecnológico, a pujança nacional não é militar. É organizar a sociedade para que a economia, a educação e a ciência conduzam ao bem-estar coletivo.

Nas Américas, a pequena Costa Rica não tem exércitos, não teve ditadores nem se viu ameaçada pelos vizinhos sob ditaduras. Nossa situação histórica é diferente (tal qual a da Argentina) e não podemos prescindir dos exércitos. Vale recordar, porém, que o auge de prosperidade no Japão, após a 2.ª Guerra, ocorreu no período em que aboliu os exércitos e os armamentos, dedicando todo o avanço tecnológico à paz e ao conforto da vida em sociedade.

Nas Américas somos diferentes. Sociedades ainda em formação, não temos a milenar sabedoria oriental. A Argentina, por exemplo, dos anos 1900 a 1960, foi admirada no mundo inteiro como potência pela riqueza agrícola-industrial. A partir de 1976, contudo, passou a sofrer os malefícios de seis anos de férrea ditadura militar direitista, que criou um tosco eufemismo – os “desaparecidos” –, agora aplicável ao submarino.

De 1976 até a derrota na Guerra das Malvinas, em 1982, a Argentina viveu uma carnificina interna em que “desapareceram” de 15 mil a 30 mil opositores do regime. Algumas centenas, guerrilheiros que desafiavam a ditadura. A imensa maioria, apenas críticos ou “suspeitos” de serem “perigosos” para a continuidade da ditadura.

Esse imenso volume de cadáveres “sumidos para sempre” nunca pôde ser medido com precisão – tudo era oculto e nem os pais se animavam a procurar os filhos. Não havia prisão formal, nem interferia a Justiça. O Estado sequestrava, torturava e matava. Logo incinerava as vítimas nos fornos da Escola de Mecânica da Armada, em plena cidade de Buenos Aires. Ou as lançava em alto-mar – ainda vivas, mas sedadas –, na mesma área em que o submarino sumiu com 44 tripulantes, hoje “desaparecidos”.

Além de tudo, o drama do submarino é uma imagem destes tempos de paz impregnados de violência e corrupção, lá e aqui, em que cultivamos o horror, mesmo indiretamente e até sem o perceber.

Do assalto de rua (com ou sem tiros) à corrupção que domina o poder no conluio entre políticos e grandes empresas, aturamos viver num mundo drogado, subornados pela mentira, sem reagir. O novo chefe da Polícia Federal, já ao tomar posse, se atreveu a dizer que “uma única mala” com meio milhão de reais, carregada por um assessor do presidente Michel Temer, não é motivo para denúncia por corrupção, e apenas rimos do absurdo…

Não vemos que nos deixam sem ar, submersos no infecto mar de um sistema partidário dirigido por pigmeus. E tão sufocados como os 44 tripulantes do submarino argentino, vítimas de uma guerra de mentira.

No Brasil, a guerra é real, por milhõe$ de reai$ e contra 207 milhões de habitantes.

*Jornalista e escritor, prêmio Jabuti de Literatura em 2000 e 2005 e Prêmio APCA 2004, foi correspondente 

do Estado na Argentina

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.