Nós nos gargalos das áreas urbanas

Quem tenha passado os olhos nas últimas semanas pelo noticiário dos jornais provavelmente se terá surpreendido com tantas informações sobre as desigualdades de renda no Brasil e suas consequências no estratos mais pobres da população. Em particular com informações como a de que habitantes de áreas mais ricas da Grande de São Paulo têm renda até 39 vezes maior que os de áreas mais pobres (Estado, 29/11). Ou a de que "morador de área nobre de São Paulo vive até 13 anos mais", isto é, tem 13 anos mais de expectativa de vida ao nascer (82,4 anos) que o habitante de uma área mais pobre, que é de 69 anos (26/11). No geral, a esperança de vida para os brasileiros aumentou três meses e 25 dias em uma década. Mais para as mulheres, que têm esperança de 78,6 anos, que para os homens, com 71,3.

Washington Novaes, O Estado de S.Paulo

12 Dezembro 2014 | 02h04

Certamente isso sintetiza as fortes desigualdades em matéria de acesso à saúde, à alimentação adequada, à habitação em áreas menos poluídas, ao saneamento básico, entre vários fatores. Mas esses e outros dados demonstram também, segundo a Pnad-IBGE (Folha de S.Paulo, 29/11), que em 2013 a capital paulista respondeu por 15% no aumento do número de "extremamente pobres" - e foi a que mais contribuiu entre as capitais para o aumento total de 823 mil, entre 2012 e 2013, com rendimento per capita abaixo de R$ 77 mensais. Já o Nordeste é, entre as várias regiões do País, a que tem maior número de muito pobres - ou 3,6 milhões, mais de 50% do total geral. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Fundação João Pinheiro lembram no Atlas do Desenvolvimento Humano em Regiões Metropolitanas que há municípios com R$ 7,9 mil de renda domiciliar per capita mensal, como há outros municípios onde essa renda é 46 vezes menor, R$ 170. Mesmo a cidade de São Paulo tem "bolsões de pobreza".

Na área da alimentação inadequada, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde diz que a obesidade aflige quase 30% da população total do planeta, ou 2,1 bilhões de pessoas (eram 857 milhões em 1980), entre pobres e ricas. Nas desigualdades de renda, temos no País 61 "bilionários" (Estado, 2/12) - os Estados Unidos têm 7.135 pessoas com mais de US$ 1 bilhão, individualmente; a China, 2.378; e o Japão, 1.240 (Folha de S.Paulo, 10/6). Não custa repetir o que já foi escrito aqui: só 34% dos chefes de família que vivem em "pobreza crônica" no Brasil têm ensino fundamental completo, quando na população em geral essa taxa vai a 52,7% (Estado, 10/11), segundo o Banco Mundial; só 67,1% têm acesso a água potável adequada; 54% ao esgotamento sanitário (ante 76% no geral). Sem falar nas carências em matéria de energia.

Mas a situação dos pobres melhorou nos últimos tempos mais que a da população total - embora os chefes de famílias pobres que vivem nos bairros mais violentos tenham de dedicar 20% de seu orçamento a manter os filhos em escolas privadas, não só pela qualidade do ensino, mas também com medo da violência nas áreas de escolas públicas (Folha de S. Paulo, 7/12).

Transporte é uma área muito preocupante. Basta ver que em 2013 diminuiu em 30% a velocidade média dos ônibus (de que se servem os que não têm carros, principalmente) em São Paulo (Agência CNT, 11/8); em 18 anos caiu 50%, segundo a Agência Nacional de Empresas de Transporte Urbano. A velocidade dos ônibus era de 27 km/h, hoje é de 12 km/h. Até o fim do ano as ciclovias deverão chegar a 200 quilômetros na capital - a cidade tem 17 mil km de ruas a avenidas (Estado, 11/8).

Moradores de áreas mais nobres, entretanto, protestam contra a abertura de ciclovias perto de suas residências (26/11), por não desejarem movimento de pessoas e ruídos, além de temerem maior insegurança. Seja como for, o País já tem mais de 70 milhões de veículos nas ruas (Associação Nacional de Transportes Públicos), há quem preveja 200 milhões para a próxima década. Também não custa repetir que Helsinque, a capital da Finlândia, planeja não ter mais automóveis em meados da próxima década. Londres já limita áreas livres para eles.

"O carro é o cigarro do futuro", tem dito o urbanistas Jaime Lerner (Fórum de Sustentabilidade, 5/11). "Só corredor exclusivo para ônibus não resolve." Umas das soluções, diz ele, é destinar a habitações populares os espaços ocupados pelos carros em estacionamentos nas residências e nas áreas públicas: São Paulo tem 5 milhões de carros, cada um ocupando 50 metros quadrados; seriam 250 milhões de metros quadrados. Mais de 50% do espaço (público e privado) das cidades é destinado a carros, que continuam a ter reduções de impostos.

Soluções há, evidentemente. Mas exigem mudanças de enfoques em nossas políticas públicas. Em programas preferenciais para enfrentar as enormes desigualdades sociais no País. Temos avançado, mas ainda é muito pouco. Não se pode, em nome de uma suposta igualdade de direitos, manter os diferenciais que separam cidadãos e estratos sociais. A desigualdade de renda também é fruto de políticas diferenciadas que favorecem este ou aquele setor com isenções de impostos, programas em obras nesta ou naquela área, e assim por diante - tanto que a riqueza privada no mundo, depositada em bancos, cresceu em 2013 mais de 10% e passou de US$ 132 trilhões para US$ 152 trilhões (Folha de S.Paulo, 10/6). O Brasil mesmo está entre os dez países com maior número de detentores de mais de US$ 1 bilhão cada - mais que a França, a Itália, o Canadá (Estado, 18/9).

Não dá para esperar que tudo se resolva sem intervenção direta do poder público. Nossas crises, apesar de alguns avanços sociais, são muito evidentes, principalmente nas áreas urbanas e, nestas, nas regiões metropolitanas. E sabendo que os próximos tempos serão muito difíceis, não se pode brincar com fogo.

WASHINGTON NOVAES É JORNALISTA

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