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Nota baixa para o SUS

O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2014 | 02h 05

Apesar do que tenta alardear o governo do PT, a saúde pública no País vai mal, e a população sabe disso. É o que mostra pesquisa feita no Estado de São Paulo a pedido da Associação Paulista de Medicina (APM) e do Conselho Federal de Medicina (CFM). Numa escala de zero a 10, 51% dos entrevistados deram ao Sistema Único de Saúde (SUS) uma nota entre zero e 4; 35%, entre 5 e 7; e apenas 13% avaliaram que o SUS merece uma nota entre 8 e 10. Não é para menos: a pesquisa indica, por exemplo, que 3 em cada 10 paulistas estão aguardando algum tipo de atendimento do SUS.

Feita com o objetivo de "conhecer as opiniões e percepções dos paulistas sobre a saúde no Brasil, com foco no atendimento oferecido pelo Sistema Único de Saúde", a pesquisa relata que, para todos os serviços oferecidos no SUS, há uma parcela muito expressiva da população que avalia o acesso aos serviços como difícil ou muito difícil, especialmente a consulta com médico, o atendimento de emergência em pronto-socorro e as cirurgias.

Os dados da pesquisa confirmam estudos anteriores, que já indicavam descaso com a saúde pública. Uma auditoria, divulgada no início do ano pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre a assistência hospitalar no âmbito do SUS, revelou que, em 1995, o Brasil tinha em média 3,22 leitos hospitalares por mil habitantes. Em 2010, o índice havia caído para 2,63. Na ocasião, o TCU alertou para "problemas graves, complexos e recorrentes" no sistema de saúde: falta de leitos, falta de profissionais, falta de medicamentos e de insumos hospitalares, falta de equipamentos, falta de instalações adequadas.

A redução do número de leitos no SUS prosseguiu nos anos seguintes. O Conselho Federal de Medicina revelou que a rede pública havia perdido, entre janeiro de 2010 e julho de 2013, 12.697 leitos, enquanto a rede privada de saúde ampliava no mesmo período a sua capacidade em 13.438 vagas de internação. Não é ocioso lembrar que apenas 29% dos brasileiros têm plano de saúde. No Estado de São Paulo, onde o porcentual é mais alto, são 39% dos paulistas a partir dos 16 anos que contam com algum tipo de cobertura médica privada. Esses números mostram que o descaso com a saúde pública afeta diretamente a grande maioria da população.

A pesquisa mostra que o SUS continua sendo muito procurado. Apesar de São Paulo ser o Estado mais rico da federação e com maior porcentual de assistência médica privada, 89% dos paulistas usaram nos últimos dois anos algum dos serviços do SUS. Entre as pessoas que não utilizam habitualmente o SUS, 42% não o fazem em razão de dificuldades com o SUS, e apenas 33% alegam que não recorrem ao sistema único por terem um plano de saúde privado.

A boa notícia da pesquisa fica por conta do programa Saúde da Família. Um quarto da população do Estado já foi atendido pelo programa (a média brasileira é de 29%) que foi bem avaliado. Entre as pessoas que já foram atendidas, 47% deram ao programa nota entre 8 e 10, numa escala de zero a 10. É exceção que confirma a regra.

O Ministério da Saúde parece não se abalar com a má avaliação que a população faz do SUS. Tanto que, na tentativa de mostrar o seu empenho na área, o Ministério falou da criação do Mais Médicos, informando que o Estado de São Paulo recebeu 2,1 mil médicos do programa. Ou seja, gaba-se de atribuir prioridade a um programa polêmico, em vez de atuar onde a população realmente precisa.

A saúde é um tema prioritário para os paulistas. Em relação à esfera federal, 52% dos paulistas responderam, entre diversos temas que consideravam importantes, que a saúde era a "prioridade". A educação ficou em segundo lugar, sendo considerada a área prioritária por 19%. A moradia, tão presente no debate público atual, foi indicada como prioridade por 5% e o transporte, por 0,3%. Esses dados não deixam de ser uma ocasião para que os candidatos reavaliem as suas prioridades. Se o cliente sempre tem razão, muito mais o cidadão.

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