'Nova classe média' vive de bico

Uma parte da "nova classe média" brasileira depende de bicos para manter-se no patamar socioeconômico que alcançou. Essa constatação está em uma pesquisa que acompanhou o modo como as famílias dessa classe gerenciam sua renda. O levantamento, divulgado pelo Estado, indica uma grande dificuldade de obter estabilidade apenas com os ganhos do emprego formal, obrigando as famílias a complementar a renda com diversas atividades de caráter incerto. Dependentes da demanda por esses serviços informais, os pesquisados podem passar da classe B para a D em um curto espaço de tempo, às vezes de um mês para o outro.

O Estado de S.Paulo

26 Maio 2014 | 02h06

Embora não tenha abrangido o País todo, a pesquisa é um claro indício de que a má qualidade do emprego no Brasil condena uma parcela importante dessa festejada classe de renda ao aperto permanente em razão das dívidas, da ignorância em relação à sua situação real e do despreparo técnico e educacional para buscar uma colocação mais rentável e estável.

"Podemos dizer que a classe C é classe média quando dá", disse Luciana Aguiar, diretora da consultoria Plano CDE, especializada em classes baixas e responsável pela pesquisa.

O levantamento observou o comportamento de 120 famílias de quatro capitais - São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Durante seis meses, os pesquisadores acompanharam minuciosamente a contabilidade desses grupos. Todas as famílias apresentaram alguma oscilação entre classes sociais. Em ao menos um caso, os pesquisados deixaram a condição de pobres, frequentaram a classe C e passaram pela B, sem nenhuma garantia de que lá permaneceriam.

Isso acontece porque essas famílias têm um ganho fixo muito baixo, que frequentemente nem é fruto de trabalho formal, e só de benefícios sociais, como aposentadoria e Bolsa Família. A renda, portanto, tem de ser complementada com serviços eventuais - que muitas vezes resultam em ganhos maiores do que os proporcionados pelo fixo.

A variação da renda não seria um problema em si se as famílias pesquisadas tivessem reservas para os momentos de aperto. No entanto, graças ao crescimento da oferta de crédito e ao estímulo do governo à gastança, elas se endividaram fortemente nos últimos tempos e quase tudo do pouco que ganham é destinado ao pagamento dos débitos em atraso. Quando o teto da renda é ultrapassado, geralmente lançam mão do cartão de crédito como meio de pagamento de dívidas - há famílias com até dez cartões.

Um aspecto importante do levantamento é que muitos entrevistados só entendem que estão endividados quando não conseguem pagar as prestações ou renegociar os débitos. Parte da "nova classe média" não reconhece como dívida as prestações que ainda não venceram nem as que já estão em atraso, mas somente aquelas que o credor não aceitou renegociar. Isso significa que, mesmo endividadas, as famílias dessa classe continuam a consumir sem fazer provisão para pagar os débitos. Ao contrário: para seguir o padrão imaginado para a classe, elas ampliaram o cardápio de consumo, incluindo TV por assinatura, internet, plano de saúde e escola particular, estreitando ainda mais sua margem de manobra para enfrentar a oscilação de renda.

Desse modo, a "nova classe média" enfrenta as pressões típicas da classe média tradicional, como a inflação de alimentos e de serviços, sem ter uma estrutura orçamentária e social condizente com essa situação. Para os pesquisadores, a conjunção entre a alta de preços e a precariedade do trabalho torna essas famílias especialmente vulneráveis às mudanças de mercado.

Para que a "nova classe média" se torne estável, portanto, é preciso que haja investimento contínuo em qualificação profissional e em educação formal - uma condição crucial para enfrentar momentos como o atual, em que o mercado de trabalho, em especial no estagnado setor industrial, começa a perder o fôlego e a maior parte dos empregos que gera é de baixa qualidade.

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