O acordo com o Irã

Removidas as últimas dificuldades para a sua efetivação, o acordo nuclear entre o Irã e as cinco potências do Conselho de Segurança da ONU, mais a Alemanha, sob a mediação da União Europeia, entrará em vigor na próxima segunda-feira, pouco mais de dois meses depois do acerto preliminar alcançado em Genebra - já de si um marco histórico -, em seguida a um ano de encontros sigilosos. O documento anunciado domingo valerá por 180 dias, renováveis por outro tanto, o que certamente ocorrerá. A etapa conclusiva das negociações consistirá no desafio de eliminar ou tornar negligenciáveis as chances de o Irã ter a bomba, sem fazê-lo perder a face.

O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2014 | 02h05

Passados 12 anos da descoberta de que a República Islâmica desenvolvia um programa nuclear para fins militares, ao que se seguiram bateladas de sanções econômicas ocidentais cada vez mais severas, as partes afinal se convenceram de duas verdades. Pelo ocidente, da futilidade de retaliação armada, por mais que Israel pressionasse os EUA nessa direção ou ameaçasse bombardear por conta própria as instalações atômicas do inimigo. Um ataque retardaria, mas não extinguiria o seu presumível projeto bélico - e calaria as elites moderadas, favoráveis a uma reaproximação com o Ocidente.

Do lado iraniano, o reconhecimento de que só a adoção de uma "economia de guerra", no quadro de um feroz aperto político, daria uma sobrevida ao país asfixiado pelas sanções. O efeito provável seria uma insurreição. Ainda assim, a insensatez poderia prevalecer - a guerra europeia que rebentou há cem anos e se tornou a primeira conflagração mundial é prova definitiva de que a razão não se impõe por default nos conflitos internacionais. A rigor, não está escrito nas estrelas que o presente acordo com o Irã culminará, mais adiante, com um entendimento que removerá o seu programa nuclear dos grandes conflitos da atualidade. Mas o que dá lastro ao otimismo é a decisão ocidental de preservar as conversações do crescente envolvimento militar de Teerã na região.

Na Síria, é o pilar do regime do ditador Bashar al-Assad. Desde o acordo nuclear provisório de novembro, o Irã enviou a Damasco, pelo corredor do Iraque, o equivalente a 300 caminhões de armas pesadas. O país é também o principal provedor da insurgência no Iêmen e treina guerrilheiros do Bahrein, em pleno Golfo Pérsico. Blindadas as negociações nucleares, as partes guardaram para o futuro as suas principais demandas. A do Ocidente é de que o Irã abra mão de suas atividades de enriquecimento de urânio, mesmo no teor de 5% de material físsil, que serve apenas como combustível em usinas de geração de energia elétrica, cujo suprimento seria garantido em compromisso avalizado pelas Nações Unidas.

Já a reivindicação iraniana pende para o extremo oposto - que lhe seja reconhecido o direito de ter um programa nuclear para fins pacíficos, a que faz jus, em tese, como signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP) e membro da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o órgão da ONU que fiscaliza o setor. De qualquer forma, a solução de compromisso a que se chegou é um bom negócio para todos os envolvidos. O Irã continuará a enriquecer urânio a 5%, mas suspenderá a purificação a 20%, como vinha fazendo, alegando que se destinava a um reator de pesquisas médicas. A bomba requer 90%.

O país não desmantelará as centrífugas utilizadas para esse fim, mas tornará inofensivo o material estocado e suspenderá a construção de novas instalações nucleares. A AIEA fará inspeções mensais para conferir a obediência aos termos acordados. Já o Ocidente começará a aliviar as sanções que representam uma garrote da ordem de US$ 7 bilhões na economia iraniana. A primeira medida, o descongelamento dos US$ 4,2 bilhões em depósitos no exterior, virá em parcelas mensais de US$ 500 milhões - um seguro contra a transgressão. Em contrapartida, o presidente americano, Barack Obama, assumindo um ponderável risco político interno, afirmou taxativamente que vetará a resolução em via de ser aprovada pelo Congresso, sob evidente influência do lobby israelense, por novas punições ao Irã. Foi uma reação de estadista.

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