O ajuste chinês e o Brasil

O governo da China, principal destino das exportações brasileiras, decidiu frear o crescimento econômico para conter a alta do custo de vida. Se o plano der certo, a inflação dos alimentos e de outros produtos básicos poderá arrefecer em 2011 no mercado internacional. Isso contribuirá para a contenção dos preços também no Brasil, facilitando o trabalho do novo governo. Mas em contrapartida prejudicará a receita comercial brasileira e tornará mais complicado o ajuste das contas externas. Economistas do setor financeiro e de consultorias independentes projetam para o próximo ano um déficit em conta corrente de US$ 69 bilhões, segundo a pesquisa Focus do Banco Central (BC). A deterioração do balanço de pagamentos só não tem sido maior graças às boas cotações das commodities.

, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2010 | 00h00

As autoridades chinesas vêm apertando a política monetária há vários meses para frear a inflação. Não tiveram sucesso até a semana passada. Em novembro os preços ao consumidor foram 5,1% mais altos do que um ano antes, segundo os dados oficiais. Foi a maior variação observada em 28 meses. O aumento acumulado em 12 meses havia chegado a 3,6%, em setembro, e 4,4%, em outubro. As maiores altas têm ocorrido nos preços dos alimentos e no custo da habitação e por isso as famílias de baixa renda são as mais sacrificadas.

O mais novo lance da política anti-inflacionária ocorreu no dia 25, quando o Banco do Povo, o BC chinês, aumentou os juros de depósito para 2,75% e a taxa referencial de empréstimos para 5,81%, com perspectiva de elevação para 6,56% no fim de 2011. Nos dois casos o ajuste foi de 0,25 ponto porcentual. O novo aumento dos juros foi o segundo em dois meses. As taxas haviam caído em 2008, quando o governo tomou as primeiras medidas para combater os efeitos da crise internacional.

Segundo pesquisa recente do BC chinês, os consumidores estão mais preocupados com a inflação do que em qualquer outro momento dos últimos dez anos. Com a nova alta de juros - depois de ações mais suaves, como a elevação dos depósitos compulsórios -, as autoridades tentam influir no humor dos consumidores e dos demais agentes. "A expectativa de inflação é mais ameaçadora que a própria inflação", disse o primeiro-ministro Wen Jiabao.

Há mais de um ano especialistas têm apontado a formação de bolhas no mercado imobiliário e sinais de desajuste nos preços de outros ativos, mas o governo demorou a tomar medidas severas para afastar o perigo. A alta de preços dos alimentos acelerou-se neste ano e deu um forte impulso no índice de inflação.

Autoridades chinesas têm responsabilizado o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) pelo aumento dos preços internacionais. Segundo uma publicação chinesa, o ministro do Comércio, Chen Deming, chamou a atenção recentemente para o risco da inflação importada. Segundo ele, a oferta de dólares cresce de forma descontrolada no mercado internacional e isso contribuiu para o aumento de cotações das commodities.

A referência à inundação de dólares é bem fundada. Sobra dinheiro no mercado internacional, os juros no mundo rico são muito baixos. Isso favorece a especulação com os produtos agrícolas e reforça o efeito das quebras de safras em vários países. Mas a política monetária chinesa também foi muito frouxa por muitos anos, como observou o editor-chefe da publicação China Affairs, Wu Fan. Entre 2000 e 2009 o PIB medido em dólares cresceu cerca de 285%, enquanto a moeda em circulação aumentou cerca de 350%.

O governo chinês deve reduzir a meta anual de crescimento econômico para 7% nos próximos cinco anos. Nos últimos cinco a meta oficial era de 7,5%, mas a expansão média até o ano passado foi de 9,8%. Esse crescimento, o maior do mundo, favoreceu os exportadores de commodities. Neste ano, até o mês passado, o Brasil vendeu para a China mercadorias no valor de US$ 28,2 bilhões, 15,6% da receita de exportações. Sem o mercado chinês e sem a inflação dos produtos básicos, o desempenho comercial do País teria sido muito pior, por causa da valorização cambial e do baixo crescimento dos mercados mais desenvolvidos.

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