O atoleiro do comércio global

O volume do comércio global deve crescer apenas 2,5% neste ano e 4,5% no próximo, segundo as novas projeções da Organização Mundial do Comércio (OMC), mais baixas que as divulgadas em abril. As previsões foram reduzidas porque o quadro econômico internacional é bem pior que o imaginado naquele momento. Pelos cálculos publicados há cinco meses, o volume das trocas aumentaria 3,7% em 2012 e 5,6% em 2013, mas essas estimativas se tornaram muito otimistas diante da evolução dos negócios nas principais potências econômicas. O novo relatório destaca a lenta recuperação nos Estados Unidos, a perda de impulso da produção chinesa e o prolongamento da crise das dívidas soberanas na Europa. Mais assustadora que as novas projeções, no entanto, é a ressalva apresentada pelos autores do estudo. Eles admitiram dois pressupostos muito importantes ao calcular a expansão comercial do próximo ano: 1) as medidas tomadas na Europa serão suficientes para evitar uma ruptura do euro; 2) um acordo político nos Estados Unidos evitará o corte automático de gastos públicos e o aumento de impostos no próximo ano. "A falha desses e de outros pressupostos pode fazer descarrilar as últimas projeções", indicam os responsáveis pelo documento.

O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2012 | 03h08

A expansão do comércio global em 2013 será em grande parte determinada, portanto, pela capacidade dos políticos americanos de se entender a respeito da gestão orçamentária de seu país. Sem acordo entre democratas e republicanos, será muito difícil evitar o chamado "abismo fiscal" e a recaída dos Estados Unidos na recessão. A disputa eleitoral dificulta muito esse entendimento. Na Europa, o risco político é diferente: envolve tanto os conflitos no interior de cada país quanto as dificuldades de ação conjunta entre os 17 governos da zona do euro para o alívio da crise e a retomada do crescimento.

Na falta de medidas fiscais para reanimar a economia, os bancos centrais dos Estados Unidos e da zona do euro tomam a dianteira e adotam políticas para ajudar os Tesouros endividados e para estimular a expansão do crédito. "Num mundo de economias cada vez mais interdependentes, choques econômicos em uma região podem facilmente espalhar-se para outras. Medidas recentemente anunciadas para reforçar o euro e impulsionar o crescimento nos Estados Unidos são, portanto, extremamente bem-vindas", disse na sexta-feira o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy.

A opinião de Lamy sobre as novas medidas adotadas pelos bancos centrais americano e europeu é exatamente oposta à da presidente Dilma Rousseff. Ela programou para o discurso de abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, hoje, mais um protesto contra o chamado tsunami monetário, expressão usada em seus pronunciamentos contra as políticas expansionistas seguidas no mundo rico. Esse tsunami, de acordo com a presidente, provoca a valorização do real e de outras moedas de países emergentes, prejudicando suas exportações. Lamy preferiu valorizar o outro lado da história: se aquelas medidas servirem para estabilizar a economia europeia e para estimular o crescimento nos Estados Unidos, todos os participantes do comércio serão beneficiados.

De toda forma, o protesto da presidente Dilma Rousseff será provavelmente recebido como mais um esperneio sem grande relevância. Nenhum dirigente de banco central do mundo rico mudará sua orientação por causa de mais um discurso na ONU. Mas a presidente e seus ministros econômicos deveriam, em contrapartida, levar em conta as projeções da OMC.

O Brasil será especialmente afetado, como já foi neste ano, se a economia chinesa continuar no ritmo dos últimos meses ou - pior - perder mais impulso. Autoridades chinesas prometem agir para reconduzir o país a uma expansão na faixa de 7,5% a 8%. Enquanto isso, os brasileiros ficam em suspense.

Parte importante da estratégia petista consistiu em tornar o Brasil muito dependente do apetite chinês por matérias-primas e, portanto, do crescimento de um grande parceiro. Esse resultado é estritamente explicável por uma tolice ideológica. Ninguém pode atribuí-lo a um tsunami monetário.

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