O BC e o repique da inflação

Derrubar a inflação poderá ser o primeiro desafio econômico do próximo ano. Os aumentos ganharam força em novembro e o IPCA, o indicador oficial, subiu 0,83%, na maior alta desde abril de 2005. Apesar disso, a decisão de aumentar os juros ficou para janeiro, quando o Brasil já terá um novo governo e o Banco Central (BC) estará sob nova direção, presidido pelo economista Alexandre Tombini. Em sua última reunião no governo Lula, o Comitê de Política Monetária (Copom) resolveu manter em 10,75% ao ano a Selic, a taxa básica da economia. Em nota distribuída na quarta-feira, logo depois da reunião, o Copom reconheceu a piora do cenário, mas alegou já haver tomado na semana anterior medidas para conter a expansão do crédito e do consumo.

, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2010 | 00h00

Essas medidas, segundo uma fonte do BC, poderão produzir efeito semelhante a um aumento de juros de um ponto porcentual. Sem alarde, portanto, a autoridade monetária já terá tomado, antes da reunião do Copom, medidas bastante fortes para impor um freio aos preços.

Apesar disso, a nota de quarta-feira não descarta a hipótese de novo aumento de juros, no começo do ano, se o cenário continuar desfavorável. O Copom voltará a reunir-se em 18 e 19 de janeiro.

O primeiro dia, como sempre, será dedicado a um exame amplo da economia, com atenção especial às pressões inflacionárias. A decisão sobre os juros será tomada no dia seguinte. Não haverá aumento, se as pressões estiverem mais brandas e a meta de 4,5% parecer alcançável. Mas parece precipitado dar como certa essa melhora.

Segundo os mais otimistas, até lá os preços dos alimentos poderão perder impulso e isso derrubará a inflação. Há um evidente ponto fraco nessa hipótese: o custo da alimentação, nesta altura, é apenas parte do problema, embora seja, sem dúvida, uma parte muito importante.

Entre outubro e novembro as pressões inflacionárias se tornaram mais espalhadas, como confirmou o indicador de difusão. A parcela dos itens com elevações de preços passou de 64,84% para 67,19%, segundo cálculo da Rosenberg & Associados.

Os núcleos, estimados com exclusão dos componentes considerados mais instáveis, também mostraram aceleração nos aumentos. Os especialistas trabalham com vários tipos de núcleos e todos confirmaram a tendência de aumentos mais fortes e generalizados.

No dia seguinte à reunião do Copom, a Fundação Getúlio Vargas divulgou seu Índice Geral de Preços - DI. A alta foi de 1,58%, bem maior que a do mês anterior (1,03%). Esse índice é formado por três grandes componentes: preços ao consumidor, preços ao produtor e custo da construção. O primeiro aumentou 1% em novembro. Em outubro havia subido 0,59%. As altas se intensificaram nas sete classes de despesas de consumo e não só no grupo dos alimentos.

O quadro dos preços ao produtor é especialmente interessante e confirma a aceleração de aumentos de todos os grupos de preços. As cotações dos agropecuários subiram 4,13% em outubro e 5,56% em novembro. A elevação de preços dos bens industriais passou de 0,39% para 0,75%. Quando se tomam os bens finais com exclusão dos alimentos in natura e dos combustíveis, a tendência se torna mais clara: a variação mensal saltou de 1,21% em outubro para 1,69% em novembro.

Todos esses dados apontam para os efeitos da demanda muito aquecida. O encarecimento dos produtos agropecuários pode ser explicado pela combinação de vários fatores - condições sazonais, piora da oferta nos mercados internacionais e especulação financeira nas bolsas de commodities. Mas a difusão dos aumentos seria bem menor, se os consumidores estivessem menos dispostos a gastar mais.

Seu otimismo tem sido sustentado pela multiplicação dos empregos, pela alta dos salários e também pela rápida expansão do crédito pessoal. O excesso da despesa pública é parte importante, naturalmente, desse quadro. Os entraves ao crédito anunciados pelo BC na semana passada poderão mudar esse quadro, mas a extensão do efeito ainda é desconhecida, Por isso ainda é muito provável um novo aumento dos juros em janeiro.

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