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O BC no jogo do consumo

O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2014 | 02h 06

Com mais uma rodada de estímulo ao consumo, o governo tentará garantir um pouco mais de atividade neste semestre e atenuar o desastre econômico do ano. O primeiro semestre foi perdido, a produção industrial continua em marcha lenta e a confiança do empresário do setor permanece muito baixa, segundo informou nesta semana a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Se o novo lance der muito certo, ainda poderá produzir algum efeito benéfico no começo de 2015, nos primeiros meses do governo recém-eleito. Nesse caso, os dirigentes do setor automobilístico, o mais beneficiado pelas novas medidas, terão um bom réveillon e um bom ano-novo e o governo terá, mais uma vez, demonstrado um carinho especial pela indústria de veículos.

A nova tentativa coube ao Banco Central (BC). Não se mexe nos juros básicos da economia, mantidos em 11%, e com isso a autoridade monetária continua fazendo cara feia para a inflação. Mas o crédito será relaxado por outro meio. Os bancos poderão diminuir o recolhimento compulsório sobre os depósitos a prazo e dispor de mais R$ 10 bilhões para empréstimos. Em julho o BC já havia facilitado a liberação de R$ 30 bilhões, ao iniciar o afrouxamento dos compulsórios sobre contas à vista e a prazo.

A mudança no recolhimento anunciada na quarta-feira beneficia especialmente os negócios do setor automobilístico e da indústria de motocicletas, além de favorecer os empréstimos consignados. Para aproveitar plenamente as novas facilidades, os bancos terão de aumentar em 20% o saldo das operações com veículos, acentuou em entrevista o chefe do Departamento de Operações Bancárias do BC, Daso Coimbra. Dificilmente se poderia pensar em um benefício financeiro carimbado com maior clareza.

No mesmo dia o BC anunciou uma redução de R$ 15 bilhões do capital mínimo exigido para certas operações bancárias. Esse novo corte é somado ao de R$ 10 bilhões concedido em julho. Os bancos poderão adicionar aos empréstimos cerca de R$ 225 bilhões, nove vezes o valor subtraído do capital mínimo exigido pelas normas de segurança financeira.

Com essas medidas, a autoridade monetária avança no desmonte da política prudencial adotada em 2010. Naquele ano a economia cresceu 7,5% e a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) chegou a 5,91%.

Nos anos seguintes o quadro só mudou em parte. Em 2011 o Produto Interno Bruto (PIB) aumentou só 2,7%. A expansão ficou em 1% em 2012 e em 2,5% em 2o13. Neste ano, a atividade econômica foi muito fraca no primeiro semestre - os números gerais devem ser divulgados no fim do mês - e os sinais de estagnação da indústria persistem. A economia se enfraqueceu, mas a inflação continuou elevada. Bateu em 6,5% em 2011, recuou ligeiramente, para 5,84%, em 2012, e alcançou novamente 5,91% em 2013. Neste ano, o acumulado em 12 meses continua muito perto de 6,5%, limite da margem de tolerância, apesar do recuo das taxas mensais na passagem do primeiro para o segundo semestre. Mas economistas do setor privado continuam prevendo um repique e uma taxa acumulada, em dezembro, ainda na vizinhança de 6%.

O governo continua gastando muito, os aumentos salariais permanecem acima dos ganhos de produtividade e ainda será preciso ajustar, neste ano ou no próximo, preços contidos de forma voluntarista pelo governo. Ao ampliar o crédito aos consumidores, o BC assume, portanto, o risco de jogar mais combustível na inflação. Dirigentes da instituição têm negado esse perigo, como se a manutenção dos juros em 11% bastasse para frear a alta de preços e levar a inflação a 4,5%, a meta, nos próximos anos. Mas por que os preços seriam imunes a um novo estímulo ao consumo?

Além do mais, incentivos ao consumo vigoram há anos e a economia permanece emperrada. Aos empresários falta confiança para investir e elevar a produtividade das empresas. Ao governo falta competência para realizar seus projetos e programas. Crédito mais fácil em véspera de eleição nunca resolveu problemas como esses.

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