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O Brasil e a cautela do Fed

Boas e más notícias para o governo brasileiro vieram embutidas no pronunciamento de ontem da presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Janet Yellen. Os juros deverão subir lentamente nos Estados Unidos, se ainda houver algum aumento neste ano, segundo indicou a economista. Para Brasília, este é o lado mais animador do pronunciamento. As condições do mercado financeiro, já menos favoráveis que nos anos anteriores, poderiam tornar-se ainda mais adversas com um aperto mais rápido da política monetária na maior economia do mundo. O crédito do Brasil já foi rebaixado ao grau especulativo por duas grandes agências de classificação de risco, a Standard & Poor’s (S&P) e a Fitch, e o rebaixamento foi estendido a várias empresas, tanto estatais quanto privadas. Qualquer movimento para tornar o crédito mais escasso e mais caro nos principais mercados poderá complicar seriamente a recuperação econômica do Brasil.

11 Fevereiro 2016 | 02h55

Também é positiva a aposta na continuada recuperação da economia americana, reiterada pela presidente do Fed em seu depoimento semestral na Câmara de Representantes, em Washington. Mas a combinação das duas notícias – maior cautela no aumento de juros e crença reiterada no crescimento econômico – só é possível de modo muito limitado. A elevação mais lenta dos juros, depois de sete anos de taxas próximas de zero, só tem sentido porque nem todas as novidades do mercado financeiro e das condições de crescimento global são animadoras.

As condições financeiras nos Estados Unidos tornaram-se menos favoráveis ao crescimento e, além disso, maiores incertezas quanto à economia global têm aumentado a instabilidade nos mercados. A queda dos preços do petróleo e de outras commodities tanto reflete a insegurança dos agentes como aponta riscos maiores para países dependentes das exportações de produtos básicos. São especialmente preocupantes as perspectivas das economias emergentes mais vulneráveis a dificuldades nos mercados externos. As incertezas valem também para a China, embora nenhum indicador recente, ressalvou a presidente do Fed, sugira uma desaceleração mais brusca do crescimento chinês.

A fuga de capitais da China é um bom indicador das preocupações do mercado. No ano passado a China perdeu US$ 637 bilhões, segundo estimativa do Instituto Internacional de Finanças publicada logo após o discurso de Yellen. De toda forma, mesmo sem um pouso forçado da economia chinesa, as exportações americanas podem ser afetadas por uma expansão mais lenta de grandes emergentes e isso é levado em conta nas análises do comitê responsável pela política monetária dos Estados Unidos.

Mesmo sem ser citado explicitamente no discurso, o Brasil está obviamente incluído na lista dos países vulneráveis a novos choques externos. A maioria dos problemas brasileiros é produto de erros do governo, acumulados e agravados desde o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas o quadro nacional ainda pode ser agravado pela piora das condições externas.

O risco de piora dessas condições é parte da mensagem contida no discurso da presidente do Fed. Em nenhum momento ela apontou a iminência de uma nova crise global ou de uma interrupção do crescimento americano, mas suas advertências foram vigorosas e suficientes para explicar por que o Fed, depois de ter elevado os juros no fim do ano, preferiu adotar desde a reunião de janeiro uma atitude cautelosa.

Tudo isso justifica, dirão alguns, a decisão do Banco Central brasileiro, em sua última reunião, de evitar uma nova alta de juros. A decisão pode ser defensável – e mesmo isso é discutível. Indefensável, mesmo, e este é o ponto importante, é a sujeição da política monetária às ordens do Palácio do Planalto. Dirigentes do Banco Central podem negar essa sujeição, mas seus atos, somados à história da política monetária no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, indicam o contrário.

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