O Brasil e a nova geopolítica global

País perdeu espaço nos últimos 15 anos e para voltar ao jogo vai ter de pagar um alto preço

*Rubens Barbosa, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2017 | 03h04

A geopolítica tem como objetivo fazer a interpretação dos fatos da atualidade e do desenvolvimento político dos países, além de compreender e explicar os conflitos internacionais e as principais questões politicas da atualidade, a partir do seu território, do produto interno bruto (PIB) e da população.

Tornou-se clichê dizer que o mundo passa por grandes transformações: surgem múltiplos polos de poder, a China volta ao centro do cenário internacional, as dificuldades nos EUA, na União Europeia, a crise do multilateralismo (ONU e OMC) e os rápidos avanços tecnológicos, por exemplo.

Essas mudanças afetaram também a geopolítica, que passou a incorporar três novas dimensões: a construção de espaços regionais, o crescimento do mundo digitalizado (internet, TV) e a expansão dos espaços econômicos sem fronteiras, com a globalização dos fluxos de capital e de investimentos.

O regionalismo afirma-se como uma resposta à globalização, como se observa na Ásia, na Europa e na América do Norte. Na prática, evidencia-se pela negociação de mega-acordos regionais que geram crescente volume de intercâmbio comercial e cadeias produtivas de valor agregado.

Os avanços tecnológicos, com ciclos cada vez mais rápidos, permitem a ampliação dos espaços digitalizados na indústria (4.0) e nos serviços (e-commerce), sem falar no papel que a internet e a televisão desempenham nas comunicações e nos movimentos sociais, com grande impacto na política dos países.

Com a globalização ampliaram-se os espaços econômicos sem fronteiras, acelerados pela rapidez das movimentações dos fluxos de capital e investimentos, sobretudo a partir do fim do século 19 e início do século 20. Um fenômeno que veio para ficar, superando as crises ocasionadas pelas guerras mundiais e pela depressão. Apesar das dificuldades atuais, com a redução do comércio internacional e das correntes de investimentos, a globalização vem se diversificando e crescendo, apesar da perda de apoio político no mundo de hoje, exemplificada pela saída do Reino Unido da União Europeia e pela eleição de Donald Trump e a nova política comercial de Washington. A globalização está ainda mais ampla, ao incluir os serviços, e mais sofisticada, em virtude, em especial, da velocidade da absorção da tecnologia.

Como se insere o Brasil nessa nova geopolítica global?

Nos últimos 15 anos nosso país ficou fora dos avanços verificados nas três áreas da nova geopolítica acima referidas. Por motivos ideológicos e estratégicos equivocados dos governos petistas, isolou-se das negociações comerciais bilaterais e regionais, preferindo a negociação multilateral na Organização Mundial do Comércio (OMC), em crise cada vez mais aguda, agravada pelo fracasso da Rodada Doha. Ao ignorar a tendência global de acordos de preferências comerciais, deixou de influir na formulação de regras e regulamentos de última geração, permanecendo com o modelo antigo de negociação de preferências tarifárias. Com políticas industriais e de comércio exterior voltadas para o mercado interno, o Brasil perdeu espaço nos fluxos dinâmicos de comércio e de investimento, registrando uma reduzida participação nas cadeias de valor agregado. Com baixo nível de investimento interno, foram registrados avanços incipientes na era digital, sobretudo no setor industrial. A integração regional esteve sempre presente na retórica oficial, mas ausente nas ações efetivas de política externa e de comércio exterior que projetassem o interesse brasileiro, governamental e privado, no entorno geográfico do País – à exceção da cumplicidade com os países bolivarianos, em meio à grave crise venezuelana – e na perda de espaço do Brasil nos serviços e na exportação.

A era do conhecimento impacta com muita força todas as economias. Educação, tecnologia e inovação deveriam estar no topo da lista das prioridades do governo e do setor privado. A velocidade e a intensidade das transformações tornam urgentes mudanças de percepções e de políticas, difíceis de acompanhar se não houver uma predisposição a aceitar as mudanças e alterar velhas práticas que por tanto tempo beneficiaram muitos setores com restrições ao intercâmbio com o resto do mundo. Exemplo disso é o atraso com que começamos a enfrentar os desafios para nos aproximarmos das técnicas de indústria 4.0, que demandam absorção de técnicas, tecnologias e financiamento.

Numa das áreas mais dinâmicas do processo moderno de globalização – a da expansão dos acordos comerciais bilaterais e regionais –, os governos petistas isolaram o Brasil das negociações que proliferavam sob os auspícios da OMC ou mesmo fora dela, como os mega-acordos comerciais negociados na Ásia (Trans-Pacific Partnership) e na Europa (União Europeia e Japão), que passaram a incorporar novas regras, não discutidas multilateralmente. Para voltar a participar do jogo o Brasil vai ter, agora, de pagar um alto preço, como estamos vendo nas negociações do Mercosul com a União Europeia.

Com esse pano de fundo, o futuro governo que surgirá da eleição de 2018 não poderá deixar de levar em conta a projeção externa do Brasil, com implicações na política econômica, industrial, de comércio exterior e sobre a política externa. Será imperioso incorporar uma visão de médio e longo prazos e uma clara percepção das novas tendências geopolíticas sobre o Brasil.

A área internacional sempre foi relegada a um distante segundo plano pelos políticos. Hoje o crescimento econômico e o emprego têm muito que ver com o que acontece no mundo. A percepção de que existe uma fronteira entre a formulação da política econômica e de comércio exterior e a agenda externa está superada e precisa ser rapidamente retificada, para o Brasil voltar a se inserir nos fluxos dinâmicos da economia e do comércio exterior globais.

*Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice)

 

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