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O Brasil em baixa

Rebaixado mais uma vez pela Standard & Poor’s (S&P), uma das três maiores agências de classificação de risco, o Brasil deve continuar afundando no atoleiro da crise pelo menos por mais um ano, segundo a própria S&P, sua concorrente Moody’s, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as instituições do mercado financeiro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e fontes de Brasília. Nesta altura, só os mais otimistas apostam em menos de 3% de contração econômica em 2016. Enquanto pioram as projeções para este ano, ainda se esperam os números oficiais do desastre de 2015. Uma boa pista pode ser o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado ontem. Esse indicador, usado como prévia do Produto Interno Bruto (PIB), encolheu 4,11% no ano passado, na série livre de fatores sazonais, e 4,08%, na série sem ajuste. Pelas estimativas da OCDE e do FMI, a recessão brasileira em 2015 deve ter chegado a 3,8%.

Já muito feia, a imagem da economia brasileira ainda piorou com as avaliações e projeções tétricas acumuladas na quarta-feira e na quinta. Na quarta, a S&P anunciou o novo rebaixamento da nota de crédito soberana e, como consequência, das classificações de várias empresas e instituições financeiras privadas e estatais. Com a nova revisão, os papéis emitidos pelo governo brasileiro estão dois níveis abaixo do grau de investimento. Desde setembro esses títulos foram rebaixados três vezes, duas pela S&P e uma pela Fitch. Por uma interessante coincidência, as decisões foram anunciadas, nas três ocasiões, pouco depois de tropeços feios na política orçamentária e que se confundem com a trajetória profissional do atual ministro da Fazenda.

O primeiro ocorreu quando o Executivo, no fim de agosto, mandou ao Congresso um projeto de Orçamento com previsão de déficit primário (sem contar os juros). No começo de setembro a S&P tirou do Brasil o grau de investimento.

Em dezembro o governo anunciou a intenção de reduzir, ou até eliminar, o superávit primário prometido para 2016. Era uma recaída do Executivo, depois de haver corrigido a tolice de agosto. Foi a vez do corte da nota pela Fitch.

Poucos dias antes do segundo rebaixamento pela S&P, comunicado nessa quarta-feira, o governo havia adiado a apresentação ao Congresso de suas medidas de arrumação das contas públicas. Além disso, havia deixado vazar a ideia de abrir espaço para um déficit primário de até 1% do PIB em 2016.

Em todas as ocasiões, a explicação do rebaixamento incluiu referências à incerteza quanto à correção das finanças públicas, à crise política e às perspectivas de baixo crescimento econômico ainda por um longo período. Em seu comunicado de quarta-feira, a S&P cita “indícios” de nova revisão da meta fiscal de 2016. A agência projeta déficits primários de 1,3% do PIB neste ano e de 0,7% em 2017. A proporção da dívida bruta dever atingir 73,3% em 2017 e depois 76,5%.

O Brasil, segundo a S&P, terá uma contração econômica de 3% em 2016 e uma expansão de 1% em 2017, com pouca possibilidade, portanto, de aumento da arrecadação fiscal. A Moody’s projeta mais um ano de recessão, com o PIB 3% menor que o de 2015. O País continuará na contramão da economia mundial, apesar da piora das previsões para o cenário internacional. Pelos cálculos da OCDE, o PIB do Brasil diminuiu 3,8% em 2015 e encolherá 4% neste ano. Em novembro, ainda se projetava para 2016 uma contração de 1,2%. A estimativa do FMI para o ano é pouco melhor – recuo de 3,5%.

Sem investimento em máquinas e outros bens de produção, as piores previsões para o PIB parecem muito prováveis. No ano passado, só 74% das empresas industriais investiram, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). No fim de 2014, 76% haviam anunciado a intenção de investir. Agora, só 64% mencionam planos para reforçar a capacidade produtiva em 2016. Não há surpresa. Com tanta projeção negativa e sem rumo claramente definido pelo governo, estranho, mesmo, seria algum sinal de otimismo.