O Brasil nos planos da China

A maior economia da América Latina, o Brasil, tem um papel importante nos planos de consolidação da China, segunda maior economia do mundo, como principal parceira comercial e grande fonte de financiamento dos países sul-americanos. Nos acordos celebrados entre o governo brasileiro e o chinês, durante a visita do primeiro-ministro Li Keqiang, o Brasil aparece principalmente como receptor de investimentos, de empréstimos e de tecnologia. É uma posição compatível com a ocupada no comércio bilateral. Nas trocas entre os dois países, o lado brasileiro aparece quase exclusivamente como fornecedor de commodities – matérias-primas e bens intermediários – e como comprador de manufaturados.

O Estado de S. Paulo

21 Maio 2015 | 03h00

Dos US$ 40,62 bilhões exportados pelo Brasil em 2014, 84%, ou US$ 34,29 bilhões, corresponderam a produtos básicos. Os semimanufaturados, igualmente classificáveis como commodities, proporcionaram R$ 4,67 bilhões, ou 11,49%. A receita dos manufaturados ficou em US$ 1,62 bilhão, menos de um décimo da receita obtida com essa categoria nas exportações para os Estados Unidos.

A autorização do governo chinês para a venda de jatos da Embraer à Tianjin Airlines, anunciada por Li, de nenhum modo altera o padrão do comércio entre os dois países. Mais de uma vez os governantes petistas classificaram como “estratégica” a relação entre Brasil e China. Mas o real sentido estratégico dessa relação tem correspondido, até agora, à natureza semicolonial das trocas bilaterais.

A posição do Brasil é a mesma dos outros países da América do Sul no comércio com a China. Os graus de industrialização desses países podem variar, mas todos são basicamente fornecedores das matérias-primas necessárias ao desenvolvimento chinês. O roteiro de Li na região inclui também o Chile, o Peru e a Colômbia.

No caso da América do Sul, os planos são mais complexos – e provavelmente mais custosos – do que aqueles implantados na África. Envolvem a participação em projetos de exploração de recursos minerais, como petróleo, em obras de infraestrutura e na implantação de indústrias. Na Argentina, primeira etapa da atual investida na região, os chineses conquistaram neste ano, em troca de investimentos e financiamentos, vantagens comerciais e até a possibilidade de empregar trabalhadores de seu país.

A visita do primeiro-ministro resultou em 35 acordos, em promessas de negócios no valor de US$ 53 bilhões e na possibilidade, indicada por ele mesmo, de constituição de um fundo bilateral de US$ 20 bilhões para atividades produtivas. A construção de uma ferrovia entre o Brasil e o Peru, para ligar o Atlântico ao Pacífico, destacou-se na lista dos possíveis investimentos em infraestrutura como o mais ambicioso. Mas para esse, como para outros empreendimentos, ainda será preciso cuidar do projeto e de uma porção de detalhes práticos. As conversas trataram da participação chinesa, como investidores ou financiadores, em projetos de portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, habitação e energia.

A autorização para a compra de jatos da Embraer, a liberação das importações de carne bovina e de aves, acertos entre a Vale e grupos chineses e mais créditos para a Petrobrás são alguns resultados concretos da visita do primeiro-ministro Li Keqiang. A Petrobrás já havia conseguido um empréstimo de US$ 3,5 bilhões de um banco estatal chinês. O total poderá chegar a US$ 5 bilhões.

Como de costume, a diplomacia preparou uma enorme papelada para oficializar os acordos econômicos, financeiros e culturais, as declarações de intenção e as proclamações políticas dos governos envolvidos. Autoridades brasileiras e chinesas comprometeram-se mais uma vez a cooperar nos foros internacionais e a defender o multilateralismo. Além disso, segundo o 11.º item do Plano de Ação Conjunta 2015-2021, as duas partes continuarão a promover os contatos entre o Partido Comunista da China e os partidos brasileiros “com vistas a intercambiar experiências em governança nacional”. Nada mais promissor que essa cooperação.

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