O câmbio e a gastança

Com crescimento econômico de 7,5% estimado para este ano e de 4,5% para 2011, o Brasil aparece bem num cenário global marcado por baixo dinamismo e alto desemprego no mundo rico. O País e a maior parte da América Latina continuam bem avaliados pelo FMI. Mantêm a respeitabilidade conquistada depois de várias e penosas tentativas de ajuste. Mas há sinais de perigo e, no caso da economia brasileira, duas luzes de alerta estão acesas. Houve neste ano indícios de atividade superaquecida e o Banco Central (BC) reagiu aumentando os juros básicos. Mas falta cuidar do principal fator de risco: a rápida expansão do gasto público. A advertência aparece em dois diferentes capítulos do novo Panorama Econômico Mundial, recém-divulgado pelo FMI.

, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2010 | 00h00

O Panorama é produzido por uma equipe muito bem informada sobre as condições de cada região e de cada país. Segundo o documento, a maior parte da América Latina está em rápida recuperação por não ter cometido excessos na fase pré-crise. A convalescença do mundo rico é mais lenta porque parte dos excessos - como o endividamento das famílias americanas - ainda está sendo digerida. A análise, no entanto, é realista. Com algumas exceções, os latino-americanos estão relativamente bem, mas não é hora de relaxar. Um aperto fiscal ajudará a conter pressões inflacionárias (casos do Peru e do Uruguai), a combater a valorização cambial (caso do Brasil), a reduzir a dívida pública e a criar um colchão de segurança para emergências.

O relatório chama a atenção para um detalhe quase sempre ignorado nas discussões sobre o câmbio. As maiores economias da América Latina, como outras emergentes, têm atraído grandes volumes de capital estrangeiro e isso tem forçado a valorização de suas moedas, encarecendo seus produtos e tornando suas empresas menos competitivas. Esses dados são bem conhecidos. Mas há uma particularidade no caso brasileiro: um dos grandes atrativos para o investidor estrangeiro, a taxa de juros muito alta, tem relação com o excesso de gastos públicos. Os juros poderiam ser mais baixos, se o governo contivesse as suas despesas, e isso poderia ajudar a conter o ingresso de moeda estrangeira e, por consequência, a valorização do real.

O Panorama apenas menciona rapidamente esse ponto. A relação entre orçamento público, taxa de juros e câmbio foi apontada com todas as letras na entrevista coletiva, numa intervenção da economista Petya Koeva Brooks, chefe da Divisão de Estudos Econômicos do FMI. Tudo isso é discutido com frequência no Brasil.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem denunciado com insistência uma guerra cambial entre as maiores potências. Em sua descrição, o Brasil seria uma vítima circunstancial desse tiroteio. Esse quadro contém apenas uma parte dos fatos importantes. Há, realmente, uma desordem cambial na maior parte do mundo. Resulta principalmente da insistência chinesa em manter o yuan subvalorizado e da inundação de dólares promovida pelas autoridades americanas. O resto do mundo reage como pode. Mas o Brasil não é apenas uma vítima desprevenida, forçada a proteger-se com a compra de montanhas de dólares e com a imposição de uma barreira fiscal ao capital especulativo. Há mais que isso.

O Brasil aumenta o próprio risco por causa da política fiscal irresponsável e do peso excessivo jogado sobre a política monetária. O problema cambial não seria eliminado se o governo adotasse uma orientação mais prudente, porque a desordem é global. Mas o custo para o Brasil seria provavelmente menor, porque o País ficaria menos vulnerável ao tiroteio.

As autoridades já tentaram conter a valorização cambial comprando enorme volume de dólares. Impuseram uma barreira tributária ao ingresso de capital estrangeiro. A medida foi insuficiente e o imposto foi aumentado e concentrado num tipo de fluxo, aquele destinado a papéis de renda fixa. Talvez a nova iniciativa produza algum resultado. Só não se tentou, até agora, a solução mais prudente e mais favorável à preservação da saúde econômica: um pouco mais de responsabilidade fiscal.

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