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O caminho da ponderação

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Durante as comemorações dos 20 anos do Plano Real no Senado Federal, seu criador, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não se deixou ficar sentado sobre os louros do sucesso da política monetária que comandou e revolucionou a economia nacional. Também se recusou a adotar uma retórica da crítica pela crítica aos adversários do Partido dos Trabalhadores (PT) que lhe sucederam na Presidência. Em vez disso, o tucano - eleito duas vezes em primeiro turno, tamanha foi a repercussão na vida do cidadão comum de seu plano de estabilização - tratou do futuro do País.

Em Brasília, Fernando Henrique Cardoso atuou como principal cabo eleitoral de um presidenciável do partido, o senador Aécio Neves, principal obstáculo à reeleição da presidente Dilma Rousseff. Para ele, o Brasil clama por mudanças, por gente nova, e há uma "fadiga de material". Não se trata, propriamente, de uma novidade espetacular, pois, desde as manifestações nas ruas contra a péssima gestão do Estado brasileiro, esse desejo de mudança é público e notório.

Assim que as multidões deixaram as ruas no meio do ano passado, os institutos de pesquisa saíram a campo para pesquisar e constataram que nada menos do que 66% dos brasileiros entrevistados exigiam mudanças na gestão pública. Na semana passada, esse clamor se fez ouvir de novo: o instituto MDA, em levantamento patrocinado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), revelou que o anseio continua o mesmo. Apenas 12,1% dos entrevistados aceitam a manutenção do estilo da atual administração federal. Enquanto isso, 23,1% preferem manter algumas das ações do governo Dilma e 25%, a maioria de tais iniciativas. A maior parte dos consultados, 43,7%, porém, reivindica uma mudança total do que está sendo feito pela aliança liderada pelo PT. Ao constatar isso, Fernando Henrique Cardoso chamou a atenção para os 12 anos de gestão petista, embora não os tenha citado de forma explícita.

O que explicitou, isso sim, foi o reconhecimento de que o Brasil carece muito de líderes jovens e capacitados a procurar o sucesso fora das fórmulas e soluções do passado, no qual modestamente se incluiu. "Minha geração já passou. Nós já morremos. Não dá mais. Tem de passar (as responsabilidades) para outra geração", disse ele.

Como qualquer brasileiro responsável, o ex-presidente está preocupado com o acirramento do debate político neste ano de eleições para a Presidência da República e os governos estaduais. Mesmo reconhecendo que a guerra nos palanques faz parte do jogo da democracia, nem sempre limpo (pois "sem emoção ninguém consegue transmitir nada"), ele fez votos para que esta campanha, pelo menos, "não seja de insultos nem de dossiês falsos, toda essa coisa".

Ele próprio contribuiu para esse apaziguamento ao discordar do presidenciável tucano Aécio Neves, ao seu lado, que prenunciou "anos difíceis" para o sucessor de Dilma, qualquer que seja ele, porque o País estaria "mergulhado num ambiente de desesperança e descrença no futuro". FHC contemporizou: "Eu me preocupo, mas não posso ser injusto e dizer que o governo não controla a inflação. A inflação, comparada com a do início do Plano Real, que era de 20%, 30% ao mês, agora é de 6% ao ano. (...) Agora o Brasil está com um compasso diferente do compasso do mundo. Tem que ajustar. Vamos ser otimistas. Eu sou otimista. Não temos que ficar apenas jogando pedra. Temos que construir".

Tal ponderação condiz com o conselho de mais velho dado a Aécio. "Temos um bom candidato. (...) Ele tem que dizer ao País: é isso, tem um caminho, o caminho é esse", pontificou o ex-presidente. Com sua bagagem de cientista social respeitado no mundo inteiro, ele tocou no ponto nevrálgico da fragilidade da oposição à atual aliança governista: a falta de propostas concretas que animem o eleitor a evitar o "mais do mesmo", que é, no fundo, o mote da campanha pela reeleição de Dilma. O eleitor quer mudar, sim, mas também exige garantias de que a mudança venha para melhorar sua vida.

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