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O centenário de um benfeitor

Jacques Marcovitch - O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2014 | 02h 04

A celebração dos 80 anos da Universidade de São Paulo (USP), em 2014, coincide com o centenário de José Mindlin, um dos mais notáveis benfeitores da instituição. Ele iniciou uma longa jornada, na qual todos os dias foram dias de trabalho, atuando como repórter do Estado. Foi onde, aos 17 anos, viveu uma experiência útil para a vida inteira: "Aprendi a escrever, pois o jornal exigia linguagem simples, correta e acessível ao público médio".

Em 1936 concluiu o curso de Direito na USP e começou bem-sucedida carreira de advogado, trocada pela atuação como empresário, cujas competência e visão inovadora fizeram dele um ícone do setor produtivo. Em 1975 aceitou o desafio de trabalhar como gestor público à frente da Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia no governo Paulo Egydio.

Mindlin foi um secretário exemplar. Em poucos meses estruturou a carreira de pesquisador acadêmico, equilibrou o orçamento, reduziu a burocracia para apoio a projetos culturais externos e triplicou os vencimentos dos músicos do Estado. Logo veio o desencanto. Setores radicais da direita militar deflagraram uma campanha feroz contra Vladimir Herzog, escolhido por Mindlin para dirigir o jornalismo da TV Cultura. O jornalista foi brutalmente assassinado nos porões da Oban. O secretário renunciou ao cargo em sinal de protesto. Retomando a direção de sua empresa, intensificou os contatos com a universidade.

Muito já foi dito e escrito sobre José Mindlin e sua paixão pelos livros. Uma paixão materializada na coleção Brasiliana, hoje instalada na USP. Ele próprio deixou em vida testemunhos desse exercício afetivo e intelectual que o fazia buscar, obstinadamente, desde moço, raridades publicadas sobre o Brasil e sua literatura.

A vasta memória documental a respeito do bibliófilo e do leitor nos faz escolher como foco principal os seus muitos encontros com a USP. O olhar crítico e entusiasta de José Mindlin foi expresso em debate promovido pela Universidade Federal do Ceará sobre a universidade brasileira e sua relação com as empresas. Ele argumentou em sua fala que se preocupava com os destinos da pesquisa muito mais na condição de cidadão do que como industrial e usuário de seus produtos. Disse ainda, naquela intervenção, que a sua visão de "atividades produtivas" extrapolava o quarteto indústria-comércio-agricultura-serviços, incluindo também os setores de pesquisas básicas e aplicadas existentes na universidade.

Foi inestimável a cooperação que ele prestou durante vários anos à Editora da Universidade de São Paulo, liderando sua Comissão Editorial, e mais adiante integrando o Centro de História da Ciência.

Quando ocupava o cargo de reitor da USP, instituí, cumprindo o estatuto acadêmico, um Conselho Consultivo formado por representantes externos. Dentre os escolhidos para compor a nova instância crítica estava o seu nome. Ele aceitou prontamente o convite. Integravam o órgão, além dele, outro ex-aluno, Olavo Setubal, os professores Emília Viotti, Alain Touraine e Jennifer Sue Bond e a escritora Lygia Fagundes Teles.

Na cerimônia de instalação, Mindlin fez uma longa e densa exposição, que impressionou vivamente a seleta plateia. Admitindo cometer uma "heresia", assinalou que boa parte das teses acadêmicas muito pouco acrescentavam ao saber humano. Esta última observação, apresentada educadamente, levou o então pró-reitor de pós-graduação, professor Hector Terenzi, a uma réplica, invocando o fato de que a nossa universidade produzia, na época, 1.400 teses por ano, exatamente o dobro do que era produzido pela maior universidade americana. Presidindo os trabalhos, fiquei a cogitar se era isso uma vantagem ou uma desvantagem.

A dúvida, que ainda perdura, talvez fosse esclarecida se o Conselho Consultivo tivesse evoluído na estrutura da gestão central. Até que ponto, na pós-graduação, a quantidade estava afetando a qualidade? Acurada análise das consultas à Biblioteca Digital de Teses da USP contribuiria para responder às expectativas da sociedade? Fica a pergunta no ar, como pauta para um futuro Conselho Consultivo, que o estatuto continua prevendo. Acredito que uma visão externa poderia ser útil em crises como a que é atualmente vivida pela nossa USP.

No primeiro semestre de 1999 fui procurado pelo casal Mindlin, que me deu a notícia mais feliz recebida em minha gestão na Reitoria: José e Guita haviam decidido confiar sua preciosa biblioteca de raridades à guarda permanente da Universidade de São Paulo.

Em 29 de agosto do mesmo ano, a Comissão de Legislação e Recursos e a Comissão de Orçamento e Patrimônio do conselho máximo aprovaram a agilização das medidas, nos termos propostos pela Reitoria, para que a USP realizasse uma de suas metas culturais de maior alcance. Os doadores construíram pacientemente esse patrimônio cultural ao longo de sua vida e desejavam que ele se perpetuasse para usufruto das gerações vindouras. Naquela data, os membros do Conselho Universitário tomaram a histórica decisão de tornar viável a generosa ideia.

Coube a outros reitores iniciar e concluir a obra física da biblioteca, onde poderemos comemorar o centenário desse doador que se compara aos grandes benfeitores da Universidade de São Paulo. Os tesouros ali guardados, e que outrora habitavam a residência do casal Mindlin, vieram de longe, dos quatro cantos do mundo. Viajaram dezenas de milhares de quilômetros para se abrigarem na Universidade de São Paulo, sua definitiva morada, onde receberão visitantes de hoje e dos séculos futuros. Como o seu doador, também não acreditamos num mundo sem livros impressos, por maiores e bem-vindos que sejam os progressos da era digital.

*Jacques Marcovitch é ex-reitor da USP (1997-2001), e integra a Comissão USP 80 Anos. É autor dos livros 'Universidade Viva' e 'A Universidade (Im)possível', entre outros

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