O Conselhão

Não é razoável esperar resultados concretos de um fórum que reúna 96 pessoas, a maioria delas, aliás, sem direito a se manifestar durante os encontros

O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2016 | 02h55

O presidente Michel Temer comandou a 45.ª reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), a primeira depois de sua posse. O colegiado de nome portentoso, tratado na linguagem corrente como “Conselhão”, é composto por representantes dos mais diversos segmentos da sociedade – empresários, banqueiros, artistas, intelectuais, atletas, ativistas sociais, entre outros – com o objetivo de assessorar o presidente da República em todas as áreas de atuação do Poder Executivo.

Não se trata de uma novidade instituída pelo governo Temer. Tanto Lula como Dilma Rousseff convocaram esporadicamente o “Conselhão” durante os seus mandatos. Não obstante a diferença de sua composição – Temer trocou 59 dos 96 conselheiros –, o fórum apresenta um histórico de ineficácia. Ao contrário da panaceia para os males do Brasil, como fora vendido em sua concepção lulopetista, o “Conselhão” se prestou muito bem a render notícias nos jornais, boas fotos e prestígio pessoal a seus integrantes. Ao governo de ocasião, ajuda a transmitir a ideia de inclusão da sociedade no processo de tomada das decisões relativas às mais relevantes questões nacionais. Entretanto, para o País contribuiu menos do que contribuiriam as instituições regulares dos Três Poderes, acaso funcionassem harmonicamente entre si, tendo a ética, a eficiência e o interesse público como desígnios finais e inarredáveis.

Não é razoável esperar resultados concretos de um fórum que reúna 96 pessoas, a maioria delas, aliás, sem direito a se manifestar durante os encontros. São tantos os participantes que parece ser difícil para o governo checar até mesmo os antecedentes criminais de todos eles, a ponto de fazer que o presidente da República passasse pelo constrangimento de conduzir uma reunião em que tomou assento um condenado pela Justiça Federal. Um dos conselheiros, o empresário cearense Deusmar Queirós, dono de uma rede de farmácias, havia sido condenado em 2012 a mais de 9 anos de reclusão por crimes contra a ordem financeira. Recentemente, o Ministério Público Federal requereu o início da execução da pena. No “Conselhão”, Queirós sentiu-se à vontade para tratar da “Retomada do Crescimento Econômico e a Consequente Melhoria na Qualidade de Vida dos Brasileiros”, mesmo com uma sentença penal condenatória pesando sobre suas costas.

Da forma como foi imaginado e implementado, o CDES tende a exercer um papel mais midiático do que pragmático. O presidente Temer também parecia ter essa ideia ao pedir aos conselheiros, durante a reunião, que o ajudassem na divulgação dos feitos de sua gestão. “Peço que os senhores e as senhoras possam divulgar ao máximo, já está sendo divulgado, naturalmente hoje, a reunião que estamos fazendo. Mas aqui é preciso uma certa ladainha, é preciso repetir, você repete uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, é como se faz nas missas, toda missa é igual porque você repete os conceitos. Isto vai entrando no corpo, no espírito e na alma”, disse ele. É sintomática a presença de publicitários renomados no “Conselhão”.

Em recente entrevista ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura, o presidente Michel Temer revelou que seu sonho é ser visto pelos brasileiros, daqui a dois anos, como o “sujeito que colocou o Brasil nos trilhos”. Não é missão das mais fáceis, sobretudo pelo tempo de mandato que lhe resta. Para a consecução de seu intento, Temer terá de vencer o desafio de restabelecer a solidez e a credibilidade da economia brasileira, consolidar a base parlamentar que permitirá a aprovação de medidas saneadoras urgente nos campos econômico e político, além de prestar apoio integral ao andamento da Operação Lava Jato, sem emitir quaisquer sinais de hesitação. Ainda precisará dar aos brasileiros as respostas que eles exigem diante dos escândalos envolvendo colaboradores de seu círculo mais íntimo. Diante de tudo isso, não se pretende desqualificar o “Conselhão”, mas dar-lhe o tamanho exato em face dos desafios que Temer tem sobre sua mesa. É muito conselheiro para pouca sabedoria.

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