O consumo vai bem, mas o investimento vai mal

O governo pode festejar o consumo de julho, mas o crescimento econômico neste ano, e principalmente nos próximos, vai depender mesmo da indústria, o patinho feio da economia nacional. Os últimos números do varejo surpreenderam o mercado financeiro, foram celebrados pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e forçaram os analistas quebrar a cabeça. Como explicar o aumento das compras, num ambiente, segundo as sondagens, de muito pessimismo e insegurança crescente? Várias respostas parciais foram propostas e todas contêm, provavelmente, alguma verdade: o recrudescimento do frio, os novos financiamentos de móveis e utensílios para casa, o adiamento de compras em junho, primeiro mês das passeatas, o recuo da inflação e a boa oferta de crédito pessoal. Economistas mais entusiasmados admitiram rever as estimativas do produto interno bruto (PIB) do terceiro trimestre. Mas a pergunta permanece: a produção industrial crescerá o suficiente, na segunda metade do ano, para sustentar um resultado geral bem melhor que o estimado até há pouco tempo?

Rolf Kuntz,

14 Setembro 2013 | 02h13

Na sexta-feira, um dia depois da celebração do consumo de julho, saiu o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br): houve queda de 0,33% em relação a junho, descontadas as variações sazonais. O indicador praticamente voltou ao nível de março e ficou 2,6% acima do estimado para julho de 2012. Em 12 meses o crescimento sobre o período anterior chegou a 2,3%. Considerado uma prévia do PIB, o IBC-Br continua apontando uma recuperação lenta e oscilante, explicável principalmente pela trajetória da indústria.

Em julho, a produção do setor foi 2% menor que a de junho e 2% maior que a de um ano antes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O crescimento acumulado em 12 meses ficou em apenas 0,6%. Além disso, o emprego industrial diminuiu 0,2% de junho para julho, de acordo com o IBGE.

O levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), restrito ao setor de transformação, apontou um aumento de 0,3% no emprego. Os primeiros dados de agosto surgiram já na quinta-feira, quando a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) anunciou a redução de 0,3% no contingente empregado. O terceiro trimestre é normalmente um período de contratações, por causa do consumo do fim de ano, mas 2013, pelos números conhecidos até agora, está fora desse padrão.

A balança comercial combina com esse quadro. De janeiro até a primeira semana de setembro a receita de exportações, US$ 161,4 bilhões, foi 1,6% menor que a de um ano antes, enquanto o valor das importações, US$ 164,9 bilhões, foi 9,9% maior que o de igual período de 2012. Parte substancial da demanda interna vem sendo suprida com mercadorias estrangeiras - tanto matérias-primas quanto bens intermediários e produtos finais. A participação dos importados no consumo nacional de produtos industriais chegou a 21,1% no segundo trimestre, conforme a CNI, 0,1 ponto mais que um ano antes. A fatia dos importados já cresceu por 13 trimestres consecutivos, mesmo sem maior abertura do mercado e até com algum aumento de barreiras nos últimos anos.

Só por teimosia se pode continuar apontando o câmbio como o único ou o mais importante problema da indústria. Tem alguma relevância, inegavelmente, mas a maior parte dos obstáculos é de outra natureza. Entre 2000 e 2009, a produtividade do trabalho na agropecuária cresceu em média 3,8% ao ano, enquanto a da indústria de transformação diminuiu à taxa anual de 0,8%, de acordo com estudo recente dos economistas Fernanda de Negri e Luiz Ricardo Cavalcante, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Quando se considera o conjunto da economia, podem-se dividir as últimas duas décadas em duas fases bem distintas. Entre 1992 e 2001, as curvas de aumento da produtividade do trabalho e do PIB per capita praticamente coincidem. Na fase seguinte, a maior parte do crescimento do PIB per capita passou a depender da incorporação de trabalhadores.

Dadas as perspectivas do mercado de trabalho, a expansão econômica dependerá, nos próximos anos, de novos ganhos de produtividade, muito mais que da oferta de mão de obra, Isso será muito importante para a indústria de transformação e, naturalmente, para o comércio exterior e para a segurança das contas externas, em clara deterioração.

Ganhos de produtividade, para a indústria e para o conjunto da economia, dependem de vários fatores, como educação, formação de mão de obra e investimentos em capital fixo, como equipamentos, máquinas, instalações fabris e construções de infraestrutura. Entre os industriais, a intenção de investir diminuiu nos últimos meses, segundo pesquisa divulgada nesta semana pela Fundação Getúlio Vargas.

Em abril-maio, 45% das empresas consultadas informaram haver investido mais que nos 12 meses anteriores e 25% indicaram diminuição. Em julho-agosto, 36% reportaram investimentos maiores que no ano anterior e 25%, menores. Em relação aos 12 meses seguinte os sinais também pioraram. A parcela com planos de investir mais diminuiu de 51% para 34%.

Na área da logística, a evolução dependerá da competência do governo no planejamento e na condução das licitações, nas formas de mobilização do capital privado e na execução dos projetos financiados só pelo setor público. Cada um pode fazer suas apostas, de acordo com seu grau de confiança. O retrospecto é pouco entusiasmante, mas o governo tem-se mostrado pouco propenso à autocrítica e à busca de maior eficiência na formulação e na condução de políticas.

 

Jornalista

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