O desafiante de Chávez

Numa inédita consulta aberta a todos os 18 milhões de eleitores venezuelanos, a frente oposicionista ao caudilho Hugo Chávez, reunida na chamada Mesa de Unidade Democrática (MUD), escolheu domingo o seu candidato à sucessão presidencial de 7 de outubro, quando o autocrata, no poder há 13 anos, tentará se eleger pela quarta vez consecutiva. Henrique Capriles Radonski, de 39 anos, o carismático governador do Estado de Miranda, que abrange uma ampla porção da capital nacional Caracas, obteve nada menos que 63,9% dos 2,8 milhões de votos válidos, em 2,9 milhões depositados. O comparecimento excedeu as previsões. O segundo dos cinco inscritos, o também governador Pablo Pérez, do Estado de Zulia, o mais populoso do país, recebeu 30,7% do sufrágios - e imediatamente deu o seu apoio ao adversário. Conte comigo, anunciou.

O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2012 | 03h09

Além de apontar um claro vencedor, legitimado pelo voto popular, para a disputa com Chávez, a prévia mostrou que as oposições venezuelanas superaram anos de desunião e desnorteamento diante da maré montante do chavismo, responsáveis por uma desmoralizante sequência de erros. O primeiro, naturalmente, foi o fracassado golpe de Estado de 2002, dando início a uma era de amarga polarização política que serviu antes ao caudilho do que à causa democrática. O segundo tiro no pé que os oposicionistas se deram foi a pueril decisão de boicotar as eleições legislativas de 2005, o que transformou o Congresso Nacional em um apêndice do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), a legenda oficial. O terceiro vexame, no ano seguinte, foi a escolha, em arranjos a portas fechadas, do candidato presidencial Manuel Rosales, em seguida esmagado nas urnas.

A fragmentada oposição venezulana começou a criar juízo em 2o08, ao se congregar no MUD, inspirado na Concertación, a aliança que precipitou o fim do regime do general Augusto Pinochet, no Chile, duas décadas antes. Com isso, canalizou o descontentamento com o chavismo nas eleições parlamentares de 2010, quando os seus candidatos colheram mais votos que os do governo (51% a 49%), apesar das chicanas e casuísmos com que Chávez interferiu na disputa. Graças às peculiaridades do sistema eleitoral do país, de todo modo, o PSUV ficou com a maioria das cadeiras. Depois de aprender a se unir, os oposicionistas aprenderam a se abrir à população - não só com a realização da prévia, mas oferecendo uma agenda de reformas que se diria pós-chavista em vez de antichavista.

Os venezuelanos estão fartos de confrontos e divisões, afirma Capriles. No seu discurso de vitória, ele criticou o governo, mas, significativamente, não mencionou Chávez pelo nome. Decerto tem em vista, desde já, o terço de eleitores que aparece como indeciso nas pesquisas. Eles são os chamados ni-nis, que não se alinham incondicionalmente nem com o autocrata nem com os seus adversários. Ele, a propósito, parece ter recuperado parte da popularidade perdida. Com a exploração deslavada do câncer que o acometeu e que assegura ter superado, voltou a subir nas sondagens eleitorais, amealhando 56% das intenções de voto. (Nas urnas de 2006, ele obteve 63% dos sufrágios.) Temas de campanha, que substituam as meras invectivas a Chávez, Capriles terá de sobra.

Muitos venezuelanos, afinal, estão fartos também da inflação e da criminalidade - cujos índices são os piores da América do Sul. A corrupção, os apagões, a crise habitacional e a escassez de bens de consumo popular configuram uma realidade tão inegável quanto as políticas sociais que melhoraram as condições de vida da população mais miserável. Isso sem falar no retrocesso institucional imposto pela revolução bolivariana - essencialmente, a subordinação do Estado ao governo e a identificação deste com a figura de seu chefe. Na campanha deste ano, Chávez baterá os seus próprios inglórios recordes em matéria de uso dos recursos de poder para se perpetuar no controle do país. Eis por que, embora comemore a unidade cimentada na consulta de domingo, a oposição reconhece que tem pela frente, como escreveu o comentarista Antonio Cova, do El Universal de Caracas, uma missão ciclópica.

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