O desafio do novo reitor

A situação financeira da USP – que se reflete em todos setores da vida acadêmica – ainda é muito grave e, para ser superada, exigirá ao mesmo tempo mais austeridade e reformas que ataquem as raízes do problema

O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2017 | 03h08

Uma missão difícil espera o futuro reitor da Universidade de São Paulo (USP), o professor da Escola Politécnica Vahan Agopyan, escolhido pelo governador Geraldo Alckmin de lista tríplice da qual era o mais votado em eleição interna: tentar tirar a instituição de uma das piores crises de sua história. Apesar dos progressos obtidos nesse sentido por seu antecessor, Marco Antonio Zago, a situação financeira da USP – que se reflete em todos setores da vida acadêmica – ainda é muito grave e, para ser superada, exigirá ao mesmo tempo mais austeridade e reformas que ataquem as raízes do problema.

As grandes linhas do programa com que Agopyan se apresentou para a disputa terão agora de ser detalhadas. É o caso de duas das mais importantes delas – maior aproximação com a sociedade e diversificação de fontes de receita para a instituição –, para as quais deve apresentar propostas concretas. Em especial para a das novas receitas, já que fez questão de mostrar realismo na primeira declaração após sua escolha: “O risco maior já passou, mas as dificuldades financeiras vão persistir”. Basta lembrar que a USP ainda gasta 98% do que recebe do governo do Estado, 5,02% do ICMS – que é de longe sua principal fonte de receita –, com a folha de pagamento de professores e funcionários.

Uma das ideias que vêm sendo aventadas é a USP ser ressarcida por apoio técnico que pode prestar a municípios, ao Estado e à União, por exemplo na formulação de políticas governamentais. “Temos de ser mais proativos”, afirma o novo reitor. Esse já é um caminho aberto, pois, além de receber recursos de agências de fomento à pesquisa, a USP conta com fundações de apoio que formam parcerias com a iniciativa privada. Talvez já prevendo a barulhenta oposição de setores ditos de esquerda, que sempre se manifestam contra receitas extras oriundas do setor privado – apesar de isso ser comum nas melhores universidades do mundo –, Agopyan prometeu que vai continuar lutando para manter a USP como pública, gratuita e de qualidade.

Tudo indica, contudo, que esse esforço, por mais meritório que seja, não terá peso decisivo na recuperação financeira da instituição. Uma crise que vem de longe – que atinge também as outras universidades públicas paulistas – e só há muito pouco tempo começou a ser atacada seriamente. A situação chegou a tal ponto que, ainda recentemente, no primeiro semestre do ano passado, a folha de pagamento da USP ultrapassou os recursos por ela recebidos, atingindo 105,7%. As três universidades juntas – USP, Unicamp e Unesp – receberam R$ 3,67 bilhões, entre janeiro e maio de 2017, e gastaram R$ 3,69 bilhões com pessoal. Ou seja, só com pessoal se estourava o orçamento. O investimento se tornara impossível, comprometendo o futuro das instituições. E, gastando ainda 98% de seus recursos com pessoal, a USP permanece na zona de perigo.

Manter a austeridade, portanto, é indispensável. Os cortes de despesa, os programas de demissão voluntária – que levaram à dispensa de 4 mil servidores – e o ajustamento dos salários à dura realidade imposta por essa situação, assim como a suspensão de contratações, são medidas que serão necessárias enquanto não se conseguir o equilíbrio das finanças da USP, valendo o mesmo para as outras duas universidades públicas estaduais, de acordo com as características e as exigências de cada uma.

É uma realidade dolorosa, mas que só tenderá a piorar, se a administração de remédios amargos como esses for interrompida antes do tempo. As universidades públicas paulistas, a começar pela USP, estão pagando o preço da imprevidência e da má administração.

O professor Vahan Agopyan poderá ter papel importante no reerguimento da USP se, além da austeridade, atacar também as causas do mal, começando por uma política de pessoal, tanto docente como administrativo, pautada rigorosamente pelo realismo orçamentário. Uma universidade que não pode investir porque gasta tudo que tem com pessoal se torna inviável.

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