O desespero, do Haiti a São Paulo

João Cabral de Melo Neto canta a desgraça da migração brasileira. O retirante Severino vai durar na cultura pátria enquanto existir a nossa língua. Clama aos céus perder a terra que nos deu a luz por vê-la transformada em cova rasa. O quadro tecido pelo poeta evoca a tragédia planetária de hoje.

Roberto Romano, O Estado de S. Paulo

23 Maio 2015 | 03h00

Famélicos aos milhares procuram tênues promessas de vida. Os países procurados por eles os julgam inimigos a serem expulsos. Tal enredo repete milênios da humanidade. A nossa principal matriz ética, o povo israelita, até data recente sofreu exílio, pogroms, perseguição de potências estatais. Nossa alma está vincada pelos versos de Camões em Sobolos Rios, que entoa o desconsolo de quem perdeu Sião. O sopro da morte ameaça os sobreviventes, espalha dores em tempos frios.

Santo Agostinho usou aquele salmo para afirmar o exílio dos homens na cidade terrestre. No mundo, o banimento do lar é incontornável. A oração mais profunda e bela dos cristãos, dirigida à Virgem, afirma o sofrimento de quem perdeu a pátria. “A ti clamamos, exilados filhos de Eva (…) neste vale de lágrimas”.

Lamento doloroso também em Ulisses, longe de Ítaca e dos seus. No Brasil temos várias formas de queixume pela expulsão da própria terra. Gonçalves Dias testemunha.

O papa Francisco leva uma batalha quase solitária em defesa dos imigrantes que, ao perder a vida no berço familiar, enxergam futuro em países onde ainda são mantidas garantias, como o direito de viver. Conhecedor da cultura judaica e sapiente quando se trata da vida internacional (recordemos, ele é jesuíta), Francisco eleva a voz para tentar, esforço desesperado, salvar existências. Ele sabe, melhor do que muitos governantes, que o problema reside nas relações assimétricas de poder – econômico, bélico, religioso – na cena mundial. Mesmo assim defende corpos dissolvidos por oceanos – e coiotes.

Retornou à pauta brasileira o caso dos haitianos que fogem em busca de subsistência própria e familiar. Eles chegam ao Acre tangidos por hienas que se aproveitam de carne humana enfraquecida. Dali são postos em comboios para São Paulo, como pacotes incômodos. Depois recebem acolhimento da Igreja Católica paulistana e de demais organismos humanitários. Tudo ocorre como se o Brasil nada tivesse com a tragédia de sua terra.

Mas temos responsabilidade pelo Haiti. Aquele país foi o primeiro das Américas a romper o jugo colonial racista. Ele paga até hoje a suprema audácia de se definir como livre. A má consciência brasileira diante da catástrofe haitiana vem de longa data. E nossas instituições políticas, acadêmicas, bélicas agem como se o uso da força física resolvesse uma situação gerada pelos grandes interesses internacionais. Os golpes de Estado no Haiti não brotaram do nada: eles executaram exigências hegemônicas, como a europeia e norte-americana, e os alvos políticos de potências menores, como o Brasil.

Para captar a questão haitiana no seu todo existem trabalhos acadêmicos que deveriam ser mais discutidos na mídia e nos câmpus. É difícil de entender, por exemplo, o que se passa hoje no Acre e em São Paulo sem a consulta de um livro publicado em 2014 por Ricardo Seitenfus: Haiti, Dilemas e Fracassos Internacionais (Editora Unijui). O pesquisador descreve com exatidão e firmeza a gênese da catástrofe, pois não apenas a estudou, mas seguiu missões diplomáticas no país. Seus primeiros capítulos abordam os furos negros da consciência ocidental diante daquele povo. Autoridades e comentaristas puderam falar, sem enrubescer, que o país “pode existir como um grande vilarejo de marrons, um quilombo ou um palenque. Mas jamais será aceito no Concerto das Nações”.

Seitenfus relata os sucessivos golpes de Estado e a presença da força internacional que, em vez de ajudar a democracia haitiana, ampliou um podre lodaçal de incertezas, arrogância, morte. Corajoso, ele não hesita em caracterizar o pensamento brasileiro, incluindo o de Frei Betto sobre o Haiti: “Difícil seria encontrar maior primor de desinformação e, para um homem de fé, maior testemunho de como utilizá-la malevolamente”. Começa o leitor a entender a má vontade para com o livro: ele não poupa a direita, a esquerda e o centro do cenário ideológico nacional. O silêncio é a pena de morte de toda escrita realmente crítica.

A missão “pacificadora” liderada pelo nosso país custou muito em vidas, finanças e rompimento com os valores democráticos. A sua verdade aparece no ditado haitiano: “A Constituição é feita de papel, ao passo que a baioneta, de ferro”. Vivemos longos anos sob o comando da baioneta e percebemos o pouco valor da Constituição numa tirania. “Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos”… 

Não posso, aqui, seguir todos os dados históricos, sociais, econômicos expostos por Seitenfus. Seu livro incomoda os que, podendo denunciar a força como política, preferem a emoção barata diante da miséria que, digamos, é partilhada pelo Haiti e pela nossa gente. A culpa da tragédia haitiana, no Brasil, não vem apenas do Acre nem de São Paulo. Ela tem origem na História colonial, na violência da razão de Estado acostumada a jogar a sorte de povos na voragem dos rios, em tristes Babilônias.

Termino citando o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira: “Como exercício militar a Minustah (United Nations Stabilization Mission in Haiti) é excelente. No entanto, como Operação de Paz, ela não tem mais sentido”. Ao ler as páginas de Seintefus, é possível interrogar: essa missão teve algum dia sentido regenerador e democrático?

Jaques Wagner, ministro da Defesa, anuncia o final da “pacificação” para 2016, o que deveria ser uma boa notícia. Mas a ferida aberta no Haiti continuará sangrando, com a silente cumplicidade brasileira.

*Roberto Romano é professor da Unicamp, autor de ‘Razão de Estado e outros estados da razão’ (Perspectiva)

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